15/11/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (12)


As cínicas "declarações de inocência" de muitos criminosos envolvidos em actividades contra os superiores interesses da Pátria e daqueles que nela mandam.

Por essa altura, começaram a ser publicadas, nos jornais, numerosas "declarações", todas elas, aproximadamente, com o mesmo teor, em que muitos indivíduos, assustadiços e apertados pelas malhas da rede de desconfianças que sobre eles recaía, tentavam limpar as suas imagens públicas, afirmando que nada tinham a ver com o golpe que se preparara, e com o qual, diziam eles, até nem concordavam.

Esses anúncios eram todos mais ou menos assim: 

"Eu, Fulano de Tal, filho de Fulano e de Sicrana, natural de Tal Parte e residente na Rua Assim-Assim, venho declarar solenemente, para todos os efeitos julgados convenientes, que sempre fui um fervoroso admirador da obra do Estado Novo e não tenho nem nunca tive qualquer ligação, de qualquer espécie, com o denominado "Movimento dos Capitães", também conhecido por "Revolução do 25 de Abril" ou "Revolução dos Cravos", manifestando a minha total oposição às ideias que presidiram a esses acontecimentos, e afirmando o mais vivo repúdio pelos ideais comunistas, sendo uma pessoa trabalhadora e honesta, sem quaisquer posições políticas, pois a minha política é o trabalho e não me tenho dado nada mal com isso. Segue-se a assinatura e o respectivo reconhecimento notarial." 

Algumas destas declarações incluíam a fotografia, formato passe, do declarante.

Mesmo assim, algumas destas pessoas, sobre quem recaíam desconfianças de serem do "reviralho", ainda levaram, pelo sim pelo não, umas lambadas em público, dentro daquele saudável conceito do Senhor Professor Salazar, segundo o qual "uns abanões a tempo" podiam ser muito profilácticos.



Ambiente de tranquilidade absoluta num País feliz, renovado e liberto da ameaça de uma cambalhota que o teria conduzido fatalmente à desgraça, se tivesse resultado como os seus tenebrosos autores desejavam.

Logo a partir do dia 25 de Abril de 1974, o nosso Amado País entrou num clima de absoluta paz e normalidade, arrumados que foram, rapidamente, os vestígios da barafunda que se preparara, com tantos requintes de malvadez, nos tempos anteriores a essa data.

Assim, foram retomados os programas da RTP que tanto contribuíam para a felicidade do nosso Bom Povo. Um dos mais repetidos era constituído por uma rubrica única, intitulada "O Programa Segue Dentro de Momentos" – mas havia muitos outros motivos de interesse na nossa Televisão, como o Boletim Meteorológico, cujos apresentadores eram carinhosamente apelidados de "manda-chuvas", e que raramente se enganavam nas suas previsões, excepto quando anunciavam bom tempo e o anticiclone dos Açores resolvia mandar temporal para a nossa costa oeste... Também havia os divertidíssimos programas de Variedades, onde pontificavam artistas eternos, como a Simone de Oliveira, o António Calvário e outros, que ainda hoje, como então, mantêm a mesma cor com que pintam os cabelos. Mas nada de cantarem versos desse Ary dos Santos ou de outros poetas de rimas esquisitas, pois isso fora severamente proibido!

Também continuaram a escutar-se músicas muito bonitas, que tinham estado em perigo de ser ostracizadas pela Revolução – por exemplo, os êxitos populares das revistas teatrais de décadas atrasadas, como O Pirolito e O Pastel de Bacalhau, cantadas pela Margarida Amaral e pelo Artur Garcia, e jovialmente apresentadas pelo Jorge Alves.

Nas estações de Rádio, foram escrupulosamente seguidas as proibições de passar discos com cantigas sem qualquer interesse, desses desafinados "baladeiros" já referidos: nada de Zeca Afonso, Adriano Correia de Oliveira, Vitorino, Fanhais ou Manuel Freire. O mesmo para esses perigosos destabilizadores musicais como o Fernando Tordo, ou o Carlos do Carmo, este último conhecido entre os seus correligionário por "o capachinho vermelho". A nossa Rádio, devidamente controlada, passou a transmitir muita música inglesa e americana, que não oferece o perigo de incentivar a nossa Juventude a contestações perigosas, já que quase todos os versos rimam em I love you... me too... for you... yes I do... e assim por diante.

Os Jornais readquiriram rapidamente as suas rotinas de trabalho, isto é, as notícias e comentários que recebem, como manda a lei, o precioso aval e o indispensável carimbo de "Autorizado" da Comissão de Exame Prévio (a mim, dá-me mais jeito continuar a chamar-lhe, tradicionalmente, "Comissão de Censura"; é mais expressivo!)...

Assim, para evitar a difusão de matérias escabrosas ou inconvenientes, que só iriam incomodar e alarmar inutilmente o Público, continuou a ser proibido mencionar suicídios, divórcios, grandes catástrofes, revoluções que ocorram lá no Estrangeiro, e ideias políticas de qualquer espécie (salvo, naturalmente, as da Acção Nacional Popular, a antiga União Nacional, e aqui está outra designação que cala fundo na minha alma e na minha memória, e me recuso a abandonar...).



Voltam a ser activados os tradicionais Três Éfes que fizeram a felicidade deste País durante gerações.

Com que voltou a entreter-se o Bom Povo Português, no seu dia a dia, agora que passara essa ameaça terrível? Pois bem, como sempre, além dos meios de comunicação que levam o entretenimento considerado útil e apropriado às suas mãos (através dos Jornais), aos seus olhos (através da Televisão), aos seus ouvidos (através da Rádio), sabe-se que há um assunto que ocupa as mentes populares durante a maior parte do tempo: o Futebol!

Felizmente, existem valores futebolísticos que não se perderam, e que até parecem ser eternos. Um deles é o Eusébio! É certo que apareceram outros jogadores, também bastante bons, depois dele. Mas nenhum como o Eusébio, tão agarrado à sua Pátria que nunca saiu de cá, a não ser por breves períodos – ao contrário de outras vedetas do pontapé-na-bola que, assim que se acham um bocadito acima da média nacional, tratam de emigrar para outros países e outros clubes onde lhes pagam muito bem, em vez de ficarem por cá a navegar patrioticamente nesta nau com alguns rombos, mas patrioticamente nossa.

Sabe-se que outros valores importantes e muito patrióticos, profundamente ligados ao Futebol, são representados pelos Clubes e, acima de tudo, pelas "clubites". Há várias, mas algumas sobrepõem-se a todas as outras. Há uma rivalidade levada às últimas consequências, aquela que opõe o Benfica, o glorioso Benfica, ao grandioso Futebol Clube do Porto e ao valoroso Sporting. Cuidadosamente conservadas e amparadas, estas lutas entre os grandes clubes constituem uma das melhores soluções encontradas pela Política para manter entretido o Bom Povo, não lhe permitindo distrair-se com disparates como aquele que ia dando cabo deste nosso bom clima social, na fatídica noite de 24 para 25 de Abril de 1974...

Sim, há outras clubites, também com certo relevo – mas, diga-se lá o que se disser, não há nenhuma outra, além daquelas que apresentei como exemplos, que tão bem sirva para entreter e distrair as pessoas e fazê-las esquecer as contrariedades da vida, substituindo-as, com vantagem, pelas contrariedades do penalty mal marcado, do jogador mal substituído ou da má-língua do dirigente mais palavroso.

Além do Futebol, também se incentivou grandemente o revivalismo da chamada "canção nacional", o Fado, estabelecendo-se uma quota obrigatória de cinquenta por cento diários de interpretações da Mariza ou do Camané, a fim de se manter acesa e bem viva a chama patriótica da música que mais nos enobrece e nos torna conhecidos no Estrangeiro. (É verdade que a quota não se cumpre, e ninguém lhe liga, mas ficou expressa na lei, que é o mais importante).

Se juntarmos a estes dois elementos (Fado e Futebol) um terceiro, isto é, os cuidados postos para que Fátima continuasse a ser um dos principais, se não o principal, dos destinos excursionistas do País, então temos reconstituída a trilogia dos Três Éfes que fez de Portugal aquilo que ele é: um país verdadeiramente singular.

Alguns teóricos aparecem, de vez em quando, a reclamar que o País devia ser, não singular, mas plural... Confesso que não vejo onde eles querem chegar com este jogo de palavras, e não descortino qualquer vantagem em modificar um conjunto de coisas tão tradicionais como aquelas que, graças ao fracasso do tal 25 de Abril, felizmente, se mantiveram e se hão-se manter, pelos séculos dos séculos!

CONTINUA NA PRÓXIMA SEGUNDA-FEIRA




12/11/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (11)

Os primeiros tempos da nova governação. Dona Maria revela-se uma experimentada especialista em Finanças, em Diplomacia, em Obras Públicas, em Educação, em Negócios Estrangeiros, em Agricultura, em Comércio e Indústria – enfim, em tudo!

            Como é natural, o Grande Comandante, o venerando Senhor Contra-Almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz, passado que fora o susto daquela revolução que, lá por ter sido falhada, não deixara de acagaçar muita gente, pelo menos temporariamente, quis tomar o leme da Nação, com a ajuda da pessoa que, no seu superior critério, achara mais indicada para orientar o Governo, em substituição do Professor Doutor Marcello José das Neves Alves Caetano, agora designado mais simplesmente (como já foi referido) por "o Caetano", tendo mesmo perdido o direito aos dois "éles" no "Marcelo".

Este revelara-se, afinal, um fracalhote e um chochinha, em contraste com o seu antecessor, o inesquecível Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar, nunca por demais referenciado. Havia agora a esperança de que a Dona Maria constituísse uma imitação, ainda que pálida, daquele que fora o seu Mestre e Mentor.

Assim, logo na manhã do dia 26 de Abril, o venerando Chefe do Estado mandou chamar, ao Palácio Presidencial, aquela que escolhera para tão alto cargo. Já a informara previamente da sua decisão, através de um dos seus assessores, e ela mandara responder, através de um simples bilhete escrito a lápis, o seguinte: "Tá bem, aceito."

Dona Maria apresentou-se, à hora marcada, muito digna, modestamente ataviada, com um avental por cima de um vestido de chita muito simples, sapatos de salto raso e uma grande alcofa na mão. E não foi de cerimónias. Assim que entrou no vasto salão alcatifado, disse logo:

- Vamos lá a despachar, que tenho de ir à praça, antes que suba o preço do chicharro! O que é que quer de mim?

Um pouco abalado por aquela sem-cerimónia e por aquela atitude um tanto inesperada, o Grande Comandante tossiu, pegou nuns papéis, a fim de ganhar tempo para se recompor, e falou, no seu habitual tom resmungão:

- Queria acertar consigo a constituição do próximo Governo. Pensei nos seguintes Ministros...

Mas Dona Maria nem o deixou continuar:

- Agora não tenho tempo para essas conversas. E se era só para isso, nem vale a pena continuarmos. Eu não preciso de Ministros para nada. Posso perfeitamente assumir todas as pastas, porque estou preparada para isso. Adeusinho! – E já se preparava para sair porta fora.

- Mas... mas os Ministros... É preciso nomear já, pelo menos, o dos Negócios Estrangeiros, para explicar aos outros países o que se passou aqui..., Ou por outra, o que não se passou...

- Não se preocupe, que eu trato disso, depois das compras. Dou aí umas telefonadelas para o Kissinger, para o primeiro-ministro inglês e para o Vaticano, e fica o assunto arrumado!

- Mas os outros assuntos de Estado... as Finanças, o Orçamento...

- Está tudo debaixo de olho, não se chateie com esses casos, que disso percebo eu. Disso e de tudo. Escusa de arranjar Ministros, que eu domino todos esses assuntos. Bem, adeus, que se faz tarde e o senhor Pereirinha do talho já deve estar a estranhar o meu atraso!

E saiu do Palácio, deixando o Grande Comandante perfeitamente atónito.

- Estou tramado! – dizia ele para Dona Gertrudes, momentos depois. – Esta mulher saiu-me cá uma encomenda!... Se calhar, escolhi bem de mais...

- Ora, deixa lá, Américo! Se ela se dispõe a fazer o trabalho todo, aproveita tu para descansares e para voltares ao estado de sonolência que fez de ti um Presidente tão popular entre os humoristas nacionais!

E assim ficou provisoriamente resolvido, de momento, o problema da governação da nossa Bem Amada Pátria!

Consequências da tentativa de revolução: os saneamentos e outros fenómenos relacionados com o falhanço dos malvados insurrectos   

 É claro que era preciso eliminar por completo os últimos vestígios da intentona que ameaçara este bem amado País, que é de todos nós... Perdão, de todos nós, não! É de todos aqueles que o amam, e que amam incondicionalmente os Altos Responsáveis que o dirigem, a partir daquele momento representados superiormente por essa excelsa figura, tratada por todos, com enorme carinho, simplesmente por Dona Maria! Os outros, os que andem para aí com ideias esquisitas, importadas lá desse venenoso Estrangeiro-de-Fora, não merecem muito mais que desprezo e justa punição, por se atreverem a conspirar, tentando acabar com este estado da mais pura felicidade em que temos vivido nestas últimas décadas, e em que esperamos continuar a viver por muitas décadas mais!

            Em primeiro lugar, era necessário fazer aquilo que sempre se faz, em todos os países do mundo, quando há uma mudança dos seus mandantes: eliminar as figuras incómodas dos tempos e dos regimes anteriores. Chama-se, a estas operações, "saneamentos". As pessoas "saneadas" contribuem para que o ambiente fique desinfectado de ideias e acções perniciosas, que prejudicam o funcionamento normal das instituições.

            Assim, uma quantidade enorme de pessoas foi prontamente apontada em listas cuidadosamente elaboradas pela Dona Maria, constituindo os alvos preferenciais da severa sentença que lhes devia ser aplicada de imediato: todos para o olho da rua!

            Começando pelo sector militar, é evidente que foram logo saneados todos, mas mesmo todos, os implicados na tentativa de golpe. Seria difícil fazer aqui a lista completa desses malandros, mas ficam alguns dos mais evidentes: Otelo Saraiva de Carvalho, Melo Antunes, Vasco Lourenço, Vítor Alves, Garcia dos Santos, Salgueiro Maia, Jaime Neves, Vasco Gonçalves e muitos outros. Estes eram os mais activos, entre os que pretendiam conduzir o falhado golpe militar. Foi tudo para a reforma, e muita sorte em não terem ido para a Colónia Balnear do Tarrafal!... Houve muitos mais, mas era chato estar para aqui a encher páginas com nomes desses patifórios, que nem sequer merecem essa menção, a qual só lhes daria uma importância que de modo algum lhes cabe.

            Depois, foram arrumados os que se propunham compor uma futura (e evidentemente inútil!) "Junta de Salvação Nacional" – olha o disparate, como se o País precisasse de ser salvo nacionalmente por qualquer Junta! – e que eram, para começar, o tal General do monóculo, o Spínola; depois, outro General, o Costa Gomes, conhecido por "o Rolha", por ficar sempre a flutuar quando havia inundações de chatices; o Capitão-de-mar-e-guerra Pinheiro de Azevedo, um marinheiro truculento, tipo Popeye; o Capitão-de-fragata Rosa Coutinho, um sujeito que estava sempre a rir, mas que não teve vontade nenhuma de rir quando se soube saneado; o Brigadeiro Jaime Silvério Marques, antigo Governador de Macau; o General de Aeronáutica Diogo Neto, antigo comandante da zona aérea de Cabo Verde; e o Coronel de Aeronáutica Carlos Galvão de Melo, ex-comandante da Base Aérea de Monte Real. Toda esta gente foi mandada para casa, com a recomendação expressa de não porem os pés fora dos seus lares, a não ser numa ou outra ida ocasional ao supermercado, para comprar mantimentos... 
           
            Entre os políticos que mais activamente se tinham encostado ao movimento subversivo, ou que antes se tinham mostrado mais atrevidos nas suas atitudes anti-Governo, foi preciso sanear rapidamente aqueles que mais tinham dado nas vistas, e que foram lestamente corridos dos seus cargos oficiais e, até, de alguns cargos particulares. Eram pessoas que tinham ousado, nos últimos anos antes desta data fatal, levantar a crista e cantar de galo, exigindo disparates tão extraordinários como "eleições livres e directas para a Presidência da República", a "liberdade de Imprensa", a "eliminação da Censura e da PIDE", a "amnistia para os presos políticos" e assim por diante... Alguns desses senhores até tinham sido deputados, e pertencido, até pouco tempo antes, à chamada Ala Liberal, na Assembleia Nacional, de que já falei atrás. Foram todos castigados com a perda de várias regalias, para não se armarem em progressistas! Entre eles, contava-se um advogado baixinho mas muito refilão, chamado Francisco Sá Carneiro (que pretendia, vejam a ousadia! ver aprovada uma "Lei do Divórcio", parece que para ele próprio se poder divorciar); um jornalista, Francisco Balsemão (a este, parece que o ameaçaram expressamente de lhe cortarem o fornecimento de papel para o jornaleco que dirigia); um Mota Amaral, que viera dos Açores para dar, no Continente, descaradamente, sentenças sobre o "direito dos cidadãos à liberdade" e outras tolices assim; ainda um Magalhães Mota, um Miller Guerra, e mais uns tantos componentes da mesma perigosa quadrilha. Foram todos severamente censurados e proibidos de voltar a entrar na Assembleia Nacional. É certo que eles já de lá tinham saído, de livre vontade, por reconhecerem que não conseguiam torpedear o regime pelo lado de dentro daquelas vetustas paredes, mas... nunca se sabe, eram bem capazes de tentar o regresso, algum dia! Ora, assim, estando bem saneados, se o tentassem, bateriam com os narizes na porta, o que aleijaria bastante, pelo menos, o tal Sá Carneiro, que o tinha bastante grande!...

            Depois, foi a vez dos jornalistas, uma data deles, um grupo perigosíssimo, comparável a autênticos terroristas, tantos que não vou aqui mencionar todos os nomes, só de alguns que pretendiam bombardear, com palavras subversivas, a consciência virginal do nosso Povo, incutindo-lhe ideias erradas. Muitos foram logo para fora de portas – refiro-me às portas das suas respectivas redacções. Entre os nomes mais conhecidos, figuravam Raul Rego, Norberto Lopes, Adelino Gomes, uma respingona chamada  Diana Andringa, Afonso Praça, Cesário Borga, Fernando Cascais e mais uma porção deles, impossível de listar aqui. Um caso especial e muito duvidoso refere-se a uma tal Vera Lagoa, que não se sabia bem se era de sanear ou não, porque a sua posição política tão depressa a levava para o lado direito como para o lado esquerdo... Pelo sim pelo não, alguém lhe colocou mais tarde umas bombinhas à porta dos seus jornais, o "Diabo" e o "Sol", a ver se a assustavam. Parece que não deu grande resultado. 

            No capítulo da malandragem ligada à Televisão, é evidente que foi logo saneado o crítico Mário Castrim, que era um autêntico veneno, bem como um tal  Correia da Fonseca (outro crítico que até criticava acontecimentos que não aconteciam) e vários realizadores e locutores, como o Artur Ramos, o Sousa Veloso (o do jazz, não o irmão, o da TV Rural, coitado; este, ao contrário do outro, era uma jóia de pessoa), mais o Alfredo Tropa, e ainda outros perigosos agitadores.

             Entre a gente ligada ao Cinema, é claro que foram arrumados nas prateleiras vários pretensos cineastas que filmavam muitas cenas com fundos vermelhos, como o José Pedro Vasconcelos, o Fernando Lopes e o Lauro António, o crítico João Lopes, etc.

            Na Rádio, era indispensável sanear vozes como a do Luís Filipe Costa e outras, tão roucas como a dele, pelo seu injustificado desamor ao Estado Novo.

            Quanto aos chamados escritores, ou "escrevinhadores", não se podiam verdadeiramente sanear, porque nenhum deles vivia só de escrever as coisas horrorosas que saíam das suas almas e das suas canetas de tinta permanente – mas sempre podiam apertar-se-lhes os calos com umas ameaçazitas discretas de lhes censurar todo o palavreado que produzissem. Não que eu alguma vez tivesse lido uma só página de qualquer destes que vou citar em seguida, era só o que me faltava! estar a perder tempo com textos que jamais tinham feito justiça às benesses do Estado Novo... Enfim, fez-se chegar um prudente aviso, de que deviam ter muito cuidadinho, a prosadores e poetas tão pouco talentosos como Sophia de Mello Breyner, Ferreira de Castro, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Álvaro Guerra, Luís de Stau Monteiro, Herberto Hélder, Fernando Namora, Fernando Assis Pacheco, José Cardoso Pires, Bernardo Santareno, Manuel da Fonseca e mais umas dúzias desses que eram (acho eu) fracos romancistas, poetas, novelista e ensaístas – mas todos (também eu acho fortes "reviralhistas".      

Soube-se na altura que havia um plano para libertar todos os presos políticos – plano esse perfeitamente injustificado, porque toda a gente sabe que não havia nem um só preso político em Portugal! A não ser que eles quisessem ser assim apelidados, para se darem maior importância, coitados... Seja como for, as medidas de segurança nas cadeias foram rapidamente aumentadas, para evitar que perigosos cadastrados, como o Palma Inácio, o José Manuel Tengarrinha, o Nuno Teotónio Pereira, o Mário Ventura Henriques, o José Luís Saldanha Sanches e mais uma catrefada de outros patifórios do mesmo jaez, se escapassem de Caxias, O mesmo em relação à Prisão-Hospital, onde estavam comodamente instalados o Dias Lourenço e o Rogério Carvalho, entre outros. Também foi reforçada a vigilância no Forte de Peniche, onde estavam em repouso o Francisco Martins Rodrigues, o Rui d'Espinay, o João Pulido Valente, o António Metelo Perez (que tinha a mania de trocar os apelidos) e mais uma data de outros, seguidores de várias ideologias políticas, mas que, para simplificar, eram todos considerados comunistas, isto para evitar confusões causadas pelas siglas que eles tinham inventado – desde o inquietante PCP ao MDP-CDE, MRPP, LUAR, BR, FL, MFP, MES, PRP, PS, PPD, PTDP, depois a UDP e muitos outros, que só de os citar me fica a doer a cabeça, com esta confusão de letras...

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA 


08/11/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (10)

Por falar em jornais, rádios e televisão... O que eles tinham preparado para anunciar ao país, se a revolução tivesse resultado – o que, felizmente, não aconteceu!

            Sim, é evidente que os dramáticos acontecimentos que, tão prontamente, o Grande Comandante conseguira fazer abortar, eram do conhecimento prévio de, pelo menos, alguns elementos mais subversivos dos nossos meios de Comunicação Social. Nas redacções, há anos que se rosnava surdamente, sabe-se lá porquê, contra o bendito Regime que nos governava, recusando e negando, de forma tonta e irrealista, os seus evidentes benefícios. Alguns sonhavam com Paraísos que julgavam existir em terras longínquas, como essa abençoada Rússia (abençoada para eles, os comunistas, amaldiçoada para nós, os patriotas!) que era como o Sol na Terra para essa gente mal informada. E pensavam na forma de substituir o nosso viver tão calmo, tão tranquilo e tão rico de bens espirituais – embora um pouco pobrezinho e chocho, no que respeita a bens materiais, valha a verdade – pela miragem que lhes vinha lá de fora, sem repararem que o melhor Sol ainda era o nosso, este Sol que aqui se goza abundantemente, na Costa da Caparica, no Meco e noutros locais bastante acessíveis.
           
            Enfim, a verdade é que muitos desses contestatários pululavam nos locais onde se produziam e divulgavam as notícias... O que vale é que estas sempre haviam de ser devidamente desinfectadas pela nossa atenta Censura, um organismo nunca por demais louvado, pela sua meritória acção de limpeza ideológica em relação àqueles textos que, por vezes, tentam ser publicados, o que não se pode permitir de maneira alguma, por virem infestados com ideias que não convêm ao nosso Povo!

            Ora aconteceu, nesta data que podia ter sido fatídica, que alguns jornalistas tinham sido previamente informados do que se pretendia fazer ao nosso bem amado País. As suas relações privilegiadas com as forças do chamado "reviralho" permitiam-lhes estar a par dos projectos maldosos que ameaçavam surgir nos horizontes temporais mais próximos. Outros estariam mesmo implicados directamente no golpe. Vai daí, ao pensarem que a revolução estava no papo, trataram de redigir notícias em que se divulgavam pormenorizadamente todos os detalhes do que pensavam que ia passar-se.

            Assim, por exemplo, o Diário Popular tinha preparada uma primeira página, para sair no dia 26, em que apareceria uma fotografia do General António de Spínola, enquadrada por um título em letras gordas, que diria: "Movimento Militar Triunfante – Assumido o Poder por uma Junta de Salvação Nacional a que preside o General Spínola – O País regressa à normalidade"... Tudo invenções, evidentemente, mas reflectindo os desejos secretos dos revolucionários, que se precipitaram a compor estas frases bombásticas, para serem publicadas no caso de terem êxito!

            Na mesma 1ª página do Popular ainda se informaria que "O Almirante Américo Tomás e o Prof. Marcello Caetano chegaram à ilha da Madeira."... Outra falsidade, pelo menos na primeira parte: só o Caetano é que foi para a Madeira, em trânsito para o Brasil, ficando Sua Excelência o Senhor Contra-Almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz a gerir os destinos da Pátria. Mas vejam como se engana o povo com estas falsidades!... No interior do mesmo jornal do dia 26, em grandes parangonas, dir-se-ia: "Sem tiros nem violências – A D.G.S. rendeu-se à 9 e 30 da manhã". O que eles eram capazes de inventar, senhores! Como se a prestimosa D.G.S, a nossa admirada PIDE, alguma vez tivesse intenções de render-se! Pelo contrário, ela está aí, agora como sempre, viva e activa, como podemos facilmente comprovar, sempre pronta a defender-nos dos inimigos da Pátria!

            Mais tarde, na edição do dia 30, o mesmo jornal inventaria que íamos ter "Álvaro Cunhal em Lisboa", nesse mesmo dia. Não se percebe como alguém podia pretender que esse título de capa conseguisse alguma vez passar na atenta Censura, agora rebaptizada de "Exame Prévio". Enfim, pequenas confusões, naturais naqueles dias de certa perturbação.

            Também o vespertino Diário de Lisboa tinha preparada uma edição, para o dia 26 de Abril, em que titularia "Caxias caiu – Libertados os presos – Detida a DGS/PIDE". Imaginação sem limites, a deste jornal!

            Já não admira tanto que o República, bem conhecido pelo seu oposicionismo feroz, também tivesse prepara um título enorme, a vermelho, na 1ª página da sua edição de 25 de Abril, berrando: "As Forças Armadas tomaram o poder". Ainda por cima, colocaria em rodapé esta legenda provocatória: "Este jornal não foi visado por qualquer Comissão de Censura"... É preciso ter descaramento! Ainda bem que tais dislates nunca chegaram a sair a público!
           
            Igualmente O Século tinha preparado, para a 1ª página da edição de 26 de Abril, o título "Triunfou o Movimento das Forças Armadas" e, em letras maiores, "O General António de Spínola preside à Junta de Salvação Nacional". Tretas!

Falta falar daquele que era então o mais importante diário lisboeta, o Diário de Notícias, que tinha preparado um longuíssimo cabeçalho, onde se leria (se tivesse saído) o seguinte: "Às primeiras horas da madrugada de hoje – Eclodiu um movimento militar – Através do Rádio Clube Português o 'Comando do Movimento das Forças Armadas' tem divulgado o seu objectivo: A substituição do actual Regime. A actuação militar estende-se a vários pontos do país. Em Lisboa foi cercado o Quartel-General, o Aeroporto e outras instalações. Ocupadas as estações do RCP, EN e RTP."... Enfim, era este o retrato das esperanças, felizmente vãs, dos revoltosos; mas tudo isto, evidentemente, foi para o caixote do lixo, porque nenhum destes episódios, anunciados em tão largas parangonas, se concretizou!

            Nas Rádios, o panorama era idêntico: estavam previstos noticiários eufóricos, falando da revolução, da tomada do poder por essas subversivas forças do Mal, da substituição das mais prestigiadas instituições nacionais pelas forças revolucionárias – mas... nada disso aconteceu na verdade. Tudo balelas, que não chegaram a ser emitidas, embora o locutor Luís Filipe Costa tivesse pigarreado repetidamente para limpar a voz, preparando-se em vão para ler comunicados do tal suposto "Movimento das Forças Armadas"... Na verdade, no Rádio Clube Português, a grande alteração na programação foi simbolizada apenas pela não transmissão, nesse dia, dos interessantes e divertidos programas dos Parodiantes de Lisboa, devido à solenidade do momento. Fora isso, tudo o mais foi absolutamente normal: as notícias do costume, as palestras do costume, as músicas do costume, aquilo a que os ouvintes, de forma um tanto ingrata, chamavam " chatice do costume".

            E os Parodiantes de Lisboa recomeçaram, normalmente, logo no dia seguinte, os seus apreciados programas cómicos.

            Na Televisão estatal houve, é certo, alguns pequenos incidentes durante o Telejornal, onde o locutor Fialho Gouveia chegou a aparecer de cigarro na boca, armado em progressista! Foi logo ameaçado com um processo disciplinar e, é claro, apagou imediatamente a beata...

Chegou a estar previsto, para a noite, o aparecimento de uma auto-denominada "Junta de Salvação Nacional", com uma colecção de figuras sinistras, que alegariam estar a tomar conta do Poder. Só que esta gente foi rapidamente posta fora dos estúdios, sendo a sua presença substituída por um filme do engraçadíssimo cómico americano Danny Kaye, que fez rir até às lágrimas os senhores telespectadores.

E o programa para o dia seguinte, 26 de Abril, anunciava normalissimamente, para as 20 horas, o Cartaz TV, com o popular Jorge Alves; depois, a Marcha do Mundo e os atapetados Caminhos de Arraiolos, seguindo-se o Telejornal às 21,30, com o imprescindível Boletim Meteorológico; às 22, Um Pedido de Casamento, uma história de Guy de Maupassant; e, finalmente, às 23,40, o último Telejornal e a Meditação. Tudo normal, como se vê.

            Rapidamente, a Comunicação Social emendou os pequenos erros de informação a que fora levada, involuntariamente, por alguns elementos extraviados das suas redacções, e logo voltou à sua meritória obra de divulgação dos mais importantes assuntos, nacionais e internacionais, que convinha serem conhecidos do Público, evitando, ao mesmo tempo, traumatizá-lo com ideias complicadas e teorias estranhas, capazes de o levar por caminhos ínvios, em direcção a essa tal Democracia que não interessa a ninguém – nem mesmo, como se diz por graça, "ao Menino Jesus", que não consta que tenha pertencido a algum Partido Democrático que porventura existisse na Galileia...

            Voltando ainda à Rádio, é de referir que estava preparada, para o dia 25, uma programação baseada em cantigas perfeitamente desajustadas aos gostos dos nossos compatriotas. Foi necessário actuar rapidamente, para substituir esse manancial de músicas tontamente revolucionárias, por outras, mais consentâneas com aquilo de que o Bom Povo Português precisa de ouvir, a fim de continuar a sua vida calma, sem atropelos e sem abanões na tranquilidade da sua consciência.

            Por exemplo, algumas estações de Rádio tinham previsto programar a transmissão de discos desses perigosos "baladeiros" que andavam por aí a cantarolar coisas estranhas, em que se falava de um "mundo que pula e avança como bola colorida entre as mãos de uma criança", ou de um certo "machado que corta a raiz ao pensamento", ou se dizia, não se sabe bem de quem, que "eles comem tudo e não deixam nada"... Verdadeiros disparates, que nem sequer rimam como deve ser e como se ensina em qualquer Manual de Versificação, servindo apenas para perturbar os espíritos dos senhores ouvintes. Por ordem superior, todas essas musicatas foram imediatamente banidas de todas as rádios, sendo substituídas por canções muito bonitas, como, por exemplo, "Uma Casa Portuguesa", o interessante "Fado do Ciúme" ou aquele lindíssima toada popular "Lá em cima está o tiro-liro-liro, cá em baixo está o tiro-liro-ló!"...

            Enfim, o País entrava decididamente na normalidade, agora sob o superior comando de Sua Excelência a Presidente do Conselho, Dona Maria de Jesus Caetano Freire, a digna sucessora e herdeira espiritual e política do inesquecível Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar!

            E quais foram as primeiras medidas tomadas por Sua Excelência, nestas suas novas funções? Eis o que se vai explicar de seguida.

CONTINUA NA SEGUNDA-FEIRA
           


05/11/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (9)

E o povinho? Que sabia e que pensava o simples e honesto Povo Português? Nem precisava de pensar nada, pois havia, felizmente (como sempre houvera antes) quem pensasse por ele!

Na sua maioria, o povo da nossa amada Pátria nem se tinha apercebido da verdadeira dimensão da catástrofe que estivera a ponto de se abater sobre a Nação Portuguesa. Sim, é certo que tinham soado por aí uns zunzuns sobre algumas manobras de subversão, que estariam a ser preparadas em surdina, mas esse era um tema ao qual já toda a gente estava habituada, desde há muitos anos, e que nunca conduzira a qualquer mudança concreta. Logo desde os primeiros tempos em que Sua Excelência o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar começara a orientar superiormente os destinos desta Nação, uma cáfila de invejosos desatara a conspirar, primeiro com dor-de-cotovelo por não terem conseguido igualar a sua capacidade para subir tão alto, e, depois, quando a impressionante sementeira política do Senhor Professor começou a dar frutos, com o intuito confesso de se aproveitarem da sua obra e fazerem a colheita dos proveitos maduros de um trabalho insano e altamente patriótico.

Se me permitem uma analogia de tipo agronómico – eram como aqueles que colhem e comem as cerejas duma cerejeira plantada por outrem, e ainda dizem mal, por a fruta ter caroços...

Mas, é claro, toda a gente acabou por saber das profundas mudanças que acabavam de acontecer, naquela data que ficaria histórica, isto é, naquela transição do dia 24 para o dia 25 de Abril de 1974. As centrais informais de informação e boataria logo se encarregaram de espalhar as novidades por toda a parte, nem sempre, é certo, com o rigor informativo que se impunha, em tão importante ocasião.

Centremos então as nossas atenções nessa noite que poderia ter sido fatídica. Os marotos dos revolucionários, esses, evidentemente, ficaram logo a saber que a sua aventura terminava da pior maneira para eles – ao passo que, por contraste, terminava da maneira mais gloriosa para os verdadeiros patriotas! Por isso, trataram de comunicar uns com os outros, pelos meios então existentes, avisando do fracasso e recomendando que os implicados se safassem como pudessem, porque não tardariam as Forças da Ordem a procurá-los para lhes aplicarem os merecidos castigos. E esses meios de comunicação, quais eram? Como, nesse tempo, ainda não havia telemóveis, tinham de servir-se dos vulgares telefones dos TLP, desde que os tivessem em suas casas, ou dos telefones públicos, desde que tivessem a moedinha necessária para estabelecer a ligação... Mas o principal meio de comunicação era, evidentemente, o boca-a-orelha, com a boca meio fechada, a sussurrar as más notícias, e a orelha bem aberta para as receber. Este sistema sempre funcionara muito bem em Portugal, embora seja para mim um mistério, ainda hoje, como é possível espalhar, em tão pouco tempo, as últimas novidades, por todo o país, normalmente acompanhadas de piadas muito engraçadas, que toda a gente repete no dia seguinte.

Foi o que aconteceu então. Os simpatizantes da intentona ficaram a saber, quase imediatamente, do falhanço estrondoso daquela projectada golpada, e do destino dos seus principais responsáveis, já a essa hora em vias de seguirem para as paradisíacas ilhas de Cabo Verde, onde iriam passar um longo período de férias, bronzeando-se ao sol tropical... Alguns implicados, figuras menores, comparsas com reduzida importância, sem papel distribuído naquela tragédia que se ensaiara, acharam por bem, mesmo assim, à cautela, esconderem-se e anicharem-se em lugares discretos. Outros, os que tinham estado envolvidos mais directamente no golpe, trataram de se pôr ao fresco para o estrangeiro, já que o clima português, tão ameno para os fiéis seguidores da política do Estado Novo, se revelava agora inclemente para esses energúmenos.

 O dia seguinte – o dia em que eles, os antipatriotas, tinham previsto que passariam o tempo em manifestações de regozijo, acamaradando com os militares que deveriam ter dominado o país e instaurado um terrível sistema revolucionário, baseado em coisas tão tontas como "as mais amplas liberdades", "o fim da ditadura", "a abolição da PIDE e da Censura" e outros disparates sem qualquer nexo – acabou por ser igualzinho a todos os dias: toda a gente se levantou com sono, as pessoas foram para os empregos com cara trombuda, trabalharam desanimadamente, leram os jornais desportivos, discutiram os resultados do  futebol, fizeram contas à vida, a ver se tinham dinheiro suficiente para a prestação do carro, e foram tomar a bica ao café do costume, tudo na maior das rotinas...

Aliás, nos cafés, os grupinhos costumeiros, que discutiam os golos do Benfica em voz muito alta e a Política em voz muito baixa, iam sussurrando as últimas novidades, olhando por cima do ombro, a ver se não estaria por perto o habitual informador da patriótica organização chamada PIDE. E algumas dessas conversas eram reveladoras do que pensava o povo, em relação ao que se passara – ou melhor, ao que estivera para se passar.

- Então já sabes? – diria um. – Parece que estava para haver uma revolução, a noite passada...

- Não acredito! – respondia outro. – Há anos que ouço essa conversa, e nunca dá nada!

- Ah, mas desta vez era a sério! Só que a marosca foi descoberta a tempo e foi tudo para o xelindró! Quem me contou foi um tipo que é compadre do cunhado da prima da mulher de um contínuo do Ministério do Interior! O Governo vai levar uma grande mexida!

- Ó diacho! – alarmou-se um terceiro. – Vão trocar os tachos outra vez?

- Espera, ainda não te contei a melhor! O Marcelo foi para o olho da rua e vai ser imediatamente substituído!

- Não me digas! Por quem?

- Pela Dona Maria! A governanta!

- O quê? Quem é que se lembrou dessa brilhante solução?

- Quem havia de ser? Foi o Cabeça de Abóbora. De repente, o tipo parece que acordou da soneira em que anda há anos, e revelou-se de tal maneira que já lhe chamam O Grande Comandante! Foi ele que resolveu escolher a Dona Maria para Presidente do Conselho.

- Caramba! Estamos bem governados com essa! Tenho ouvido dizer que é pior a criada do que era o patrão!...

- Schiu! Fala mais baixo, que ela já deve ter ouvidos atentos por todo o lado!

- E agora, a nossa Política, que voltas é que ela irá levar? Eu fico um bocado alarmado...

- Pois eu não. Eu vou continuar, como até agora, a falar o menos possível desse assunto.

- Tens toda a razão! O melhor – começou um deles – é continuarmos a dizer, como sempre: "A nossa política é o trabalho..."

- "...e não nos temos dado mal com isso!" – concluíram os três. E fez-se silêncio no café, até porque já estava um tipo de gabardina a olhar suspeitosamente para o grupinho.

Lá fora, nas ruas, algumas floristas olhavam, com um ar muito desconsolado, para os molhos de cravos vermelhos com que se tinham fornecido nessa manhã, e que tinham pensado vender em grande quantidade, durante o dia, a fim de os militares os colocarem nos canos das armas, compondo assim umas imagens muito bonitas para ilustrar aquela data. Mas, nada... as flores estavam a murchar, ainda não se vendera nenhum cravo, e as floristas estavam a ver que tinham o negócio completamente encravado...

Bem feito, para não se armarem em apoiantes populares da revolução!

Outras, mais prudentes, tinham-se limitado aos malmequeres e outras florinhas mais apreciadas pelo Bom Povo Português, que normalmente só apreciava os cravos em alturas mais adiantadas do calendário – lá para Junho, pelo Santo António, e nunca em Abril, o das águas-mil...

Esse Bom Povo, na sua imensa maioria, nem se tinha apercebido do que acontecera – ou melhor, do que estivera para acontecer. Havia de ler nos jornais, ouvir nas rádios e ver na televisão os aspectos mais evidentes das mudanças indirectamente provocadas pela frustrada intentona – mas sem perceber grande coisa do que se passara. E ainda bem, porque não há maior felicidade, para um povo, do que trabalhar e levar a sua vidinha honesta, simples e calma, sem se meter em barafundas como aquela que quase o ameaçara, mas que, felizmente, ficara em águas-de-bacalhau!...

E todos repetiam, ordeiramente, a tal frase que quase se transformara num slogan nacional, e que todos pronunciavam, uns mais convictos do que outros, mas todos conscientes da sabedoria e sensatez que encerra: "A minha política é o trabalho, e não me tenho dado mal com isso!..."

CONTINUA NA QUINTA-FEIRA

01/11/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (8)

Quem iria substituir o Presidente do Conselho de Ministros? A grande surpresa! Uma solução genial e completamente inesperada!

 

A resposta veio, rápida e fulminante:

- Não vai ser um sucessor – vai ser... uma sucessora!

- O què?! Não me diga! Uma mulher?... Que grande surpresa! Mas quem, Senhor Presidente?

Fez-se um silêncio, uma pausa quase insuportável para o pobre ex-Presidente do Conselho, que estava nitidamente abananado com aquela situação. E que insistia:

- Mas quem? Quem é essa mulher?

Veio então a inesperada revelação, que caiu que nem uma bomba:

- É a senhora Dona Maria de Jesus Caetano Freire!

- O quê?! Caetano como eu, mas Freire? Maria de Jesus?! A Maria, a governanta?...

- Essa mesma! A governanta fiel do Senhor Doutor Salazar. 
    
Foi o espanto completo! Eis ali uma solução originalíssima para a situação delicada em que ficara o país, perante a ameaça daquela revolução (felizmente abortada) que se preparava para pôr a nossa querida Pátria de pernas para o ar. Sua Excelência o ex-Presidente do Conselho, Senhor Professor Doutor Marcello José das Neves Alves Caetano (o qual, a partir de agora, passará a ser designado mais simplesmente por "o Caetano", ou "o Marcelo", só com um "l"), ainda mal refeito da surpresa que desabara sobre ele, atreveu-se a perguntar:

- E eu, Senhor Presidente? Que cargo importante irei ocupar agora, como recompensa pelos valiosos serviços que, durante tantos anos, prestei à Nação?

A resposta veio, imediata e cortante:

- Você, Caetano, não vai ocupar cargo algum, pelo menos no nosso país. Esse costume de disponibilizar bons tachos aos ex-membros do Governo é coisa que vai acabar.

- Impossível! Sempre foi assim, desde a fundação da nacionalidade!

- Pois já é tempo de mudar, pelo menos em relação à sua pessoa. Eu não o quero cá por perto. Vai ser despachado como um vulgar emigrante, daqueles que vão lá para o Estrangeiro-de-Fora, trabalhar nas obras! Vai para o Brasil!

- Para o Brasil?!! Ora essa! Mas... porquê o Brasil? Eu até nem gosto lá muito de samba...

- Então abra lá uma padaria, que é o que fazem muitos dos nossos compatriotas. Vamos lá, ó Caetano! Está acabada a conversa. Vá, chô, andando!

E foi assim que Sua Excelência o Senhor Presidente Américo de Deus Rodrigues Thomaz, o Grande Comandante, se viu livre daquele empecilho – que foi imediatamente metido num avião para o Rio de Janeiro, em classe turística, com duas maletas onde enfiara à pressa umas camisas, uns pares de peúgas e um exemplar do seu Código de Direito Corporativo.

Por lá ficaria durante os anos que lhe restaram de vida, a dar aulas e a resmungar contra o que considerava uma injustiça muito grande – mas que não era mais do que o resultado da fina estratégia do Grande Comandante para limpar o nosso bem amado País de todo e qualquer resquício dessas ideias perigosíssimas que conduzem à malfadada Democracia, cruzes, t'arrenego, até a palavra me causa engulhos!

  
Manobras de bastidores. Os Pretendentes aos Poleiros discutem os últimos acontecimentos e combinam as suas estratégias.    

A resolução do Grande Comandante não deixara espantado apenas o pobre do Caetano. Também outros comparsas da projectada tragédia que estivera preparada para eclodir na nossa bem amada Pátria tinham ficado literalmente de cócoras perante aquela sua pronta reacção, aquela atitude tão firme e, sobretudo, tão inesperada.

Uma reunião secreta, nesse mesmo dia, entre alguns daqueles que supunham ter capacidade para governar esta terra, e esperavam ansiosamente pela possibilidade de subirem ao desejado poleiro, foi bem demonstrativa da estupefacção que os atingira. Estavam entre eles os mais cotados políticos da época, que se reuniram espontaneamente, em local discreto – mais concretamente, numa ampla casa de banho do Ministério dos Negócios Estrangeiros, forrada a mármore de Estremoz e com louças sanitárias espanholas – longe, portanto, de ouvidos bisbilhoteiros, afim de trocarem impressões sobre o futuro do país e, mais importante do que isso! o seu próprio futuro.

Estavam presentes o Senhor General Kaúlza de Arriaga, o Senhor General Santos Costa, o Doutor Franco Nogueira, o ex-Ministro da mesma pasta Doutor Antunes Varela, o Almirante Henrique Tenreiro e mais alguns Ministros e ex-Ministros, e uma boa meia dúzia de outros candidatos – não à cadeira de lona que fora a causa do lamentável espalhanço do venerado Presidente do Conselho, Professor Doutor António de Oliveira Salazar, mas ao cadeirão estofado do Poder, no qual cada um deles ansiava acomodar-se...

- Isto é que é uma gaita! – exclamou, no seu característico Português vernáculo, Sua Excelência o senhor Almirante Tenreiro. – Então o Cabeça de Abóbora vai nomear a Dona Maria para a Presidência do Conselho, caraças?!...

- Bem, em termos pragmáticos, devemos reconhecer que não é uma ideia despropositada... – avançou o diplomata Franco Nogueira.

- Essa agora! – berrou o General Kaúlza, passando uma mão perplexa pela careca luzidia. – Mas ela é uma simples mulher-a-dias!

- E se calhar a noites... Pelo menos, é o que dizem as más-línguas... – rosnou, venenoso, o General Santos Costa, que era provavelmente o mais indignado e inquieto, a ponto de já ter utilizado o mictório por três vezes, desde o começo da reunião, para fazer três nervosos chichis. Ele era, talvez, o que tinha maiores expectativas em relação à sucessão, para a qual, na sua opinião, se achava muito bem preparado.

- Tudo calúnias – explicou Franco Nogueira. – Tenho informações de confiança a esse respeito. Entre o Senhor Professor e a Dona Maria nunca houve truca-truca... E, por outro lado, devo admitir que não deverá existir, neste país, pessoa mais habilitada do que essa senhora, para continuar a obra do Senhor Professor Salazar, pelo menos no que diz respeito à gestão económica e financeira do Estado. Os longos anos de convivência com Sua Excelência, os métodos aprendidos e fielmente seguidos por ela, no governo da casa, serão indubitavelmente muito úteis para manter as contas do país em ordem.

- Sim, mas o resto? – refilou o Doutor Moreira Baptista, o qual, comodamente sentado sobre a tampa da sanita, lembrava a consistente obra conduzida durante anos pelo seu amado SNI (Secretariado Nacional da Informação), no que respeita à propaganda interna e externa do Estado Novo. 

 - Mesmo nesse capítulo, não me parece que seja má a escolha – insistiu Franco Nogueira. A Dona Maria tem muitíssima influência na condução da opinião pública nacional. Nas suas conversas com as peixeiras e as vendedeiras de hortaliça, com os carteiros, os merceeiros, os homens do talho, enfim, com todos os fornecedores que lhe batem à porta, ela tem espalhado e divulgado com muita eficiência os princípios fundamentais que servem de base à Política Nacional, nos seus variados aspectos. Não, eu acho que o lugar não está nada mal entregue!

- Então, vamos deixar que o Cabeça de Abóbora fique por cima de nós, nesta batalha pelo poder? Eu não me conformo e vou agir! – afirmou Kaúlza, resolutamente, com um pé apoiado no bidé.

- Cuidado com as palavras! – disse Tenreiro, puxando o autoclismo para abafar o som do diálogo. – O tipo, com aquele ar de morcão, e ainda que pareça andar a dormir em pé, é mais vivo do que muita gente julga!

 Depois de muita discussão, iá acabou por ficar decidido, entre os participantes naquele grupo reduzido de pretendentes ao posto mais importante da Política Nacional, que deixariam correr o marfim, e que o Grande Comandante ficaria à frente dos destinos da Nação, com a preciosa ajuda da indispensável Dona Maria, até ver se não se espalhariam ao comprido. Entretanto, não haveria oposição aparente, pelo menos para já.

Com isso, só ficaria a ganhar a nossa querida Pátria!

CONTINUA NA SEGUNDA-FEIRA



29/10/2012

E SE O 25 DE ABRIL TIVESSE FALHADO? (7)


O que podia ter acontecido, se o golpe das forças maléficas tivesse resultado e tivéssemos sofrido a prevista "Revolução dos Cravos"...

Imaginem, através de uma hipotética elaboração mental, como se teriam passado as coisas, se o golpe tivesse resultado... Ai, minha Nossa Senhora de Fátima, ai minha querida PIDE, só de pensar nisso fico todo a tremer!...

Mas, enfim, talvez valha a pena tentar imaginar como se teriam passado as coisas, se o 24 de Abril tivesse tido como consequência aquele "25 de Abril " com que os revoltosos sonhavam... Isto só como exercício intelectual, naturalmente...

Nessa noite, cantava-se, no São Carlos, a ópera La Traviata. Findo o espectáculo, os espectadores do costume (eram sempre os mesmos, os que iam ouvir música à Gulbenkian, ao Coliseu ou ao São Carlos, alguns dos quais, tanto lhes dava dormir numa sala como noutra), foram para suas casas, calmamente, criticando a voz da soprano e a afinação do coro.

Entretanto, era outra a música que se preparava para ser tocada, naquela madrugada que se aproximava...

 Assim, segundo o plano subversivo, as tropas teriam tomado conta, sem resistência que se visse, dos pontos estratégicos que lhes tinham sido assinalados. Às 3 horas da madrugada, seriam ocupados o Rádio Clube Português, a Televisão, a Emissora Nacional, o Aeroporto de Lisboa, o Comando da Região Militar, a Rádio Marconi – tudo isto e algo mais, por tropas do Batalhão de Caçadores 5 e da Escola de Administração Militar.

Pelas 4 e meia, toda a gente teria ficado muito espantada ao escutar o primeiro comunicado do Movimento das Forças Armadas, vindo do Posto de Comando, na Pontinha, mas transmitido pelo Rádio Clube Português.

Lá pelas 5 e meia, teriam chegado ao Terreiro do Paço os blindados da Escola Prática de Cavalaria, de Santarém, comandados pelo capitão Salgueiro Maia, começando assim a ocupação dos Ministérios.

Depois, às 7 e meia, novo comunicado do MFA teria enganado o povo, afirmando que o Movimento teria a intenção de o libertar do Regime que "há longo tempo o dominava"... Disparates!

E depois, sucessivamente, teria havido uma série de episódios absolutamente incríveis. Por exemplo, Sua Excelência o Presidente do Conselho ter-se-ia abrigado, completamente aterrorizado, no Quartel do Carmo!... (Absurdo! Na verdade, ele ia até lá, de vez em quando, mas para ouvir os concertos da Banda Sinfónica da GNR, nada mais!)... E dir-se-ia que dali tinha saído, horas depois, sob a protecção de um carro blindado, um Chaimite... (Nada disso! Saiu, naturalmente, no seu Mercedes oficial, como manda o imutável protocolo)...

Também se pode imaginar, embora com dificuldade, o que teria acontecido, se os dois Presidentes, o da República e o do Conselho de Ministros, tivessem sido detidos e enviados, pouco tempo depois, para um cruel exílio, primeiro na ilha da Madeira, depois no Brasil.

E mais: como teria ficado desprotegido o país, se tivessem sido dissolvidos órgãos tão essenciais como a Assembleia Nacional e o Conselho de Estado, exonerados os Senhores Governadores Civis, extintas a Mocidade Portuguesa, a Legião, a Acção Nacional Popular – e, tragédia das tragédias, eliminada a gloriosa DGS, a quem sempre continuarei a chamar PIDE, que é um nome muito mais bonito!... Impensável!

Se as coisas tivessem acontecido como esses energúmenos tinham planeado, nas suas cavilosas e astuciosas maquinações, os militares teriam tomado conta do poder, partilhando-o depois com os temíveis partidos políticos, esses antros de conspiração contra os valores pátrios.

E o País cairia no descalabro e na tragédia!... O General Spínola era muito capaz de ser nomeado Presidente da República, o major Otelo seria promovido a general e, embora não fosse de Cavalaria, havia de ameaçar cavalgar o "cavalo do Poder", capaz disso era ele! E outros perigosos indivíduos, como o socialista Mário Soares e o comunista Álvaro Cunhal seriam chamados a lugares de responsabilidade (talvez ministros, sabe-se lá... até Presidentes, imaginem só a desgraça em que iríamos mergulhar!)...
 
Sim, todos estes acontecimentos – se realmente tivessem ocorrido – teriam feito com que a Pátria desse uma valente cambalhota! Mas, felizmente, nada disso aconteceu. Aleluia!


...e o que realmente aconteceu!
                    
Pois, na verdade, tudo isto, que cabia na imaginação fértil dos malvados revoltosos, não chegou a realizar-se. Felizmente, é o que eu digo e repito, de acordo com as informações, um pouco dispersas, que me foram chegando, a este local reservado onde decorre a minha existência actual...

- Felizmente! – repito. Qualquer patriota entenderá que o tal 25 de Abril mergulharia a nossa Querida Pátria na mais negra e trágica escuridão, eliminando assim, num só golpe (uso aqui a palavra golpe propositadamente, e até poderia usar antes o termo golpada) todo o bem de que tínhamos beneficiado até então, graças à preclara actuação, principalmente, de Sua Excelência o Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar e, depois, dos seus inteligentes seguidores e continuadores! Menos inteligentes do que o Senhor Professor, é certo, mas, ainda assim, suficientemente bons para não desvirtuarem muito a sua tão virtuosa obra!...

Assim, na noite de 24 para 25 de Abril de 1974, como já se descreveu, o projectado golpe traiçoeiro abortou – mesmo sem que existisse, neste país de brandíssimos costumes, qualquer Lei do Aborto, uma indecente disposição legal que começava então a surgir, noutros países, mais atrasados que o nosso, pelo menos quanto aos valores morais e matrimoniais que devem presidir à vida de povos civilizados como o nosso.

O que aconteceu então?

Em primeiro lugar, era necessário e urgente anular os efeitos perversos da revolução que estivera em germinação. Para isso, era essencial esterilizar os mentores daqueles malvados planos revolucionários que estavam a ser congeminados, e os seus respectivos executores e pretensos protagonistas.

Para começar, e para baralhar os planos dos revoltosos, um dedicado patriota, locutor dos Emissores Associados de Lisboa, trocou os discos programados para a emissão dessa noite. Para desempenhar conscienciosamente essa patriótica sabotagem, tinha sido previamente "amanteigado" com uma generosa gratificação especial, representada por um envelope com umas discretas notas de quinhentos escudos e uma promessa de um emprego para um dos seus catorze filhos, num departamento do Estado... Assim, em vez da programada cantiguinha E depois do Adeus, os estimados ouvintes puderam deliciar-se, à hora combinada, com a interessantíssima interpretação de Alfredo Marceneiro em A Casa da Mariquinhas. E, mais tarde, à meia-noite e vinte e cinco, quem ligasse para a Rádio Renascença ouviria, não a tal cantiga grandolense dos pés a arrastar pelo chão, mas uma romântica canção de amor pela apreciada cançonetista Madalena Iglésias...

Claro que isto contribuiu para a confusão que se instalou nos pobres cérebros dos revolucionários. Sem as cantigas que lhes dariam o mote para levar a cabo a sua antipatriótica missão, ficaram completamente despassarados, tudo passou a decorrer fora dos planos previamente preparados, e eles puderam ser facilmente neutralizados pelas forças da Ordem.

Assim, todo o núcleo subversivo reunido no quartel da Pontinha pôde ser rapidamente dominado. Eram eles os cabecilhas do movimento e os que se preparavam para tomar conta do poder neste nosso amado país. Toda aquela tropa foi cercada pelos valorosos elementos da Legião Portuguesa, armados com pistolas de plástico rapidamente reunidas nos infantários frequentados pelos seus filhos e netos. As armas eram tão perfeitas que enganaram os revolucionários, aterrorizados com o volte-face dos acontecimentos e com os imponentes físicos dos seus antagonistas. Daí a poucas horas, estavam todos metidos em Chaimites, a caminho do avião que os iria conduzir à Colónia Balnear do Tarrafal, na ilha de Santiago, Cabo Verde.

Todos os outros implicados na tentativa de rebelião foram igualmente dominados e neutralizados, nos locais onde se preparavam para dar continuidade à revolução e para se apoderarem dos locais estratégicos mais importantes.

Daí a poucas horas, o incidente estava resolvido e a paz voltava às ruas e aos espíritos dos Portugueses.

É claro que, mesmo assim, a simples hipótese de se poder ter concretizado aquela terrível ameaça, e o caos que se abateria sobre a Nação, se por acaso não tivesse sido descoberta e anulada, deixava consequências visíveis. Sua Excelência o Presidente da República, o venerando Contra-Almirante Américo de Deus Rodrigues Thomaz teve então oportunidade para mostrar toda a sua fibra de valoroso combatente pela causa da Paz e da Ordem Pública, merecendo amplamente o apodo, que passaria a ser-lhe aplicado, de Grande Comandante. Assim que teve a certeza de que a situação estava mesmo controlada, logo na manhã seguinte, disse a sua esposa que saísse de baixo da cama, onde prudentemente se abrigara, e mandou chamar ao Palácio de Belém o Presidente do Conselho. Este compareceu, muito enfiado, ainda pálido do susto que apanhara, quando fora informado da intentona que se tinha preparado sem ele saber de nada. Não fazia ideia alguma do que lhe iria ser comunicado por Sua Excelência o Senhor Presidente, mas, pelo sim pelo não, ia munido com um discurso muito bem estudado, para tentar justificar o facto de ter sido colhido de surpresa por tão insólitos acontecimentos.

Tal como ele, alguns dos Senhores Ministros tinham apanhado um razoável susto, ao aperceberem-se do que se preparava. Alguns deles, mais inquietos com os destinos da Pátria, tinham feito rapidamente as malas, preparando-se para a hipótese de terem de abandonar urgentemente o país – não por temor, evidentemente! mas para assegurarem, mesmo no Estrangeiro, a continuidade da sua acção governativa, que se dispunham a manter, nem que fosse por telegrama.

Constou que um deles, mais nervoso, teve mesmo um pequeno problema intestinal, sendo obrigado a mudar rapidamente de cuecas, devido ao nervosismo causado pela preocupação de manter o funcionamento do seu Ministério num ritmo normal (e não, muito longe disso! por ter sofrido algum ataque daquilo a que popularmente se chama "cagaço", perdoem-me o termo popular)...

Ao chegar ao Palácio presidencial, Sua Excelência o Senhor Presidente do Conselho começou logo por estranhar a forma muito pouco cerimoniosa como foi recebido: o soldado da Guarda Republicana de sentinela à porta nem sequer se pôs em sentido quando ele chegou, e um simples ajudante de campo veio encaminhá-lo para o salão onde o Senhor Contra-Almirante o iria receber. Verificou, de imediato, que não havia mais ninguém presente, pelo que a conversa seria a dois. E que conversa!...

- Bom dia, senhor Presidente – cumprimentou, com a delicadeza que lhe era habitual. Porém, para sua surpresa, o Presidente nem sequer respondeu ao cumprimento. Resmungou qualquer coisa, com o seu costumeiro ar, que alguns classificavam de "trombudo", mas que não era mais que a máscara severa adequada às circunstâncias. Nem sequer o mandou sentar. Olhando sempre fixamente para o enorme e valioso tapete que forrava o chão do imenso salão, tratou de lhe explicar a razão por que o chamara – e que não seria difícil de adivinhar qual era.

- Senhor Professor Doutor Marcello José das Neves Alves Caetano, tenho a comunicar a Vossa Excelência que...

- Já sei o que Vossa Excelência vai dizer, senhor Presidente – interrompeu o Presidente do Conselho – A revolução que estava a preparar-se foi liquidada, graças ao génio estratégico de Vossa Excelência!

- Escusa de me estar para aí a dar graxa, que não ganha nada com isso! – respondeu com firmeza, na sua linguagem simples de homem do mar, o Grande Comandante. – O que tenho a dizer-lhe é muito simples: Vossa Excelência, como político, revelou-se um nabo! E, nestas circunstâncias, informo-o de que... está despedido!

- O quê?! – exclamou aquele que, a partir daquele preciso momento, passava automaticamente a ser, apenas, o "ex-Presidente do Conselho". – Mas eu... eu não tenho culpa alguma do que aconteceu!

- Ah, isso é que tem! Se, em vez de se pôr para aí com as suas conversas em família, tivesse apertado os calos a esses patifórios do reviralho, esta ameaça que pairou sobre a nossa Pátria não se teria verificado! Eu bem me fartei de lhe recomendar: porrada prà frente! É cascar nesses comunistas, nesses opositores do nosso admirável regime, que não queriam outra coisa senão correr connosco dos nosso poleiros, apoderarem-se dos nossos tachos e governarem este país, governando-se a eles ao mesmo tempo! Mas Vossa Excelência... ou melhor, você... sempre com as suas falinhas mansas, até quis mudar o calendário, inventando essa tal "Primavera marcelista"! Um verdadeiro disparate, que só podia trazer chatices à vida nacional, habitualmente tão calma e tranquila, desde que assim foi estabelecida, no tempo do antecessor de Vossa... de você, ou seja, no tempo do saudoso Senhor Professor Doutor António de Oliveira Salazar, perante cuja memória me curvo respeitosamente.

- Eu também me curvo respeitosamente... – disse, fazendo uma vénia, o Senhor Professor Doutor... isto é, disse o Marcello.

- Não curva nada, que eu bem o conheço! Sempre fingiu que se curvava, mas, lá no íntimo, estava desejando que ele batesse as botas!

- Essa referência às botas parece-me um pouco infeliz...

E aquele diálogo difícil continuou, no mesmo tom azedo, durante alguns minutos. Até que o Doutor... isto é, até que o Marcello resolveu perguntar:
                                                                                                      
- Já que Vossa Excelência insiste em me demitir, e se me permite, gostaria de saber quem vai ser o próximo Presidente do Conselho...

- Nem faz ideia de quem vai ser! – disse o Senhor Presidente, com um sorrisinho maroto. – Dê lá um palpite, vá!...

- Sei lá... Talvez o senhor General Kaúlza... o senhor almirante Tenreiro... o senhor General Santos Costa...

- Frio, frio!

- Vá lá, senhor Presidente! Diga quem será o meu sucessor!

Continua na próxima quinta-feira.

Quem irá substituir o Presidente do Conselho de Ministros? A grande surpresa! Uma solução genial e completamente inesperada!