28/01/2012

O EROTISMO A NU - De "ALGOLAGNIA" a "ASSEXUADO"


ALGOLAGNIA – É uma perversão que consiste em obter prazer ao infligir dor a outra pessoa, ou a si mesmo. A algolagnia activa é conhecida por sadismo. A algolagnia passiva chama-se masoquismo (v. estes dois temas).

ALIANÇA – Símbolo de uma união, de uma ligação – particularmente o casamento, ou, antes dele, o noivado, nas sociedades onde tais convenções continuam a ser respeitadas. As alianças são usadas nas cerimónias matrimoniais dos mais variados ritos e religiões, simbolizando o elo que se estabelece entre o noivo e a noiva (ou entre os dois noivos, ou entre as duas noivas, nos casos das ligações homossexuais). Em tempos antigos, as alianças, normalmente de ouro, ficavam enfiadas nos respectivos dedos até ao fim dos tempos – e ainda eram acrescentadas com outras, de prata, quando se atingiam certos aniversários. Mas, evidentemente, eram cuidadosamente retiradas, quando surgia a oportunidade de praticar um discreto adultério...

AMANTE – Aquele ou aquela que ama, que tem amor por alguém ou por alguma coisa. Em sentido mais restrito, é aquele ou aquela que tem uma relação amorosa não oficial com outra pessoa, não sancionada pelo casamento. Mas, afinal, amante pode ser, simplesmente, alguém que tem amor por outro alguém, ou por alguma coisa – e não, necessariamente, uma pessoa que ande a desviar dos seus deveres conjugais o cônjuge de outra pessoa, embora esta seja a definição mais habitualmente aceite...

AMAZONA – Dá-se este nome a uma mulher destemida, aguerrida, de índole varonil e aspecto masculino. Por este nome eram designadas, segundo as lendas de origem grega, as guerreiras que, na Antiguidade, teriam vivido na Trácia, na Ásia Menor. Montavam cavalos que elas próprias domavam e, para tornar mais fácil o uso do arco e das setas, queimavam a mama direita – o que era, sem dúvida, um grande desperdício. Enfim, nem tanto, pois as amazonas não admitiam nenhum homem entre elas... Para preservar a raça, apenas visitavam, em rápidas excursões sexuais, em cada Primavera, os homens que viviam nas montanhas vizinhas. Se nasciam filhos dessas breves uniões, eram devolvidos aos pais; ao passo que as filhas se juntavam a elas e eram treinadas como guerreiras. As suas armas favoritas eram o machado de dois gumes e o dardo. Os seus escudos eram pequenos e redondos, feitos de madeira ou de vime entrançado, recobertos de couro. São citadas por poetas gregos, como Virgílio, que fala dos seus "escudos em forma de lua". As lendas das Amazonas, que revelam um certo receio do homem grego em relação à mulher, ou seja, um aspecto da sua componente homossexual, deram lugar a numerosas narrativas, em que se misturam as histórias reais com a fantasia. As Amazonas teriam tido várias rainhas, todas elas proclamando-se filhas de Marte, a fim de sublinharem a sua autoridade guerreira. Entre as mais célebres, podem citar-se Antíope, que atacou Teseu e foi por ele vencida na ponte de Thermodon; Penthesileia, que, no fim da guerra de Tróia, veio em socorro de Priam e foi morta por Aquiles; Thalestris, que teria enfrentado Alexandre; etc. Mas alguns autores afirmam que as fabulosas Amazonas não seriam mais que as antigas sacerdotisas da deusa Cybele, que, em desenhos antigos da Lídia, aparecem em danças em que empunham o machado e o escudo. Ateneia conta que os Lídios teriam sido o primeiro povo a descobrir a forma de tornar as mulheres estéreis, através de uma operação cirúrgica, passando desde então a usar os serviços de eunucos femininos. Tal operação provocaria o aparecimento de características masculinas. As Amazonas com barbas e bigodes seriam então as primeiras sacerdotisas da sua antiga Deusa Mãe.
            Uma lenda paralela relaciona-se com os primeiros exploradores do Brasil, que disseram ter encontrado, no Maranhão, mulheres guerreiras quase nuas, descritas como muito brancas e muito grandes, musculosas, com longos cabelos, e que, no dia da sua festa anual, vinham banhar-se ao luar. Nesse único dia, cada uma unia-se a um homem e, se tivesse uma filha, oferecia ao seu amante ocasional uma pedra preciosa colhida no fundo do rio. O grande rio Amazonas deveria então o seu nome a estas mulheres guerreiras, que espantaram esses exploradores de um mundo, até então, desconhecido. Nesta lenda, como na lenda grega, a homossexualidade feminina das Amazonas, tal como a homossexualidade masculina dos heróis vencedores, representam os pólos mais sensíveis da eterna guerra dos sexos.
Actualmente, uma amazona é, simplesmente, uma mulher que monta a cavalo. E que pode manter (felizmente!) as duas mamas intactas.

AMBIVALÊNCIA – Característica de um indivíduo que apresenta duas atitudes afectivas opostas, simultâneas e indissociáveis (amor-ódio, desejo-receio). Em certos casos, será um sintoma de esquizofrenia. Pode significar ambiguidade, ou incerteza. No aspecto sexual, designa a existência simultânea de duas tendências, no mesmo indivíduo, em relação ao sexo masculino e ao sexo feminino (v. bissexualidade).

AMIGAR – No sentido mais puro, significa “passar a ser amigo”. Num sentido mais brejeiro e mais comum, significa “tornar-se amante”. Há ainda uma variante popular, muito curiosa e muito expressiva, que é “juntar os trapinhos”. Em qualquer dos casos, significa juntar-se a outra pessoa, seja em sentido figurado, mantendo com essa pessoa relações de amizade, seja em sentido físico, habitando, comendo, dormindo e fazendo sexo com ela.

AMOR – Aparentemente, é a palavra mais fácil de definir, entre todas as que constituem este Dicionário. Mas só aparentemente. Vejamos, para começar, uma definição clássica, retirada de um Dicionário diferente deste, isto é, um Dicionário normal. “Amor é uma forma de interacção psicológica ou psicobiológica entre pessoas, seja por afinidade imanente, seja por formalidade social (cf. “Dicionário Houaiss”). Os Românticos acharão esta definição horrível, seca, quase burocrática. Para eles e para muitos outros, o Amor é um sentimento sublime, difícil de definir em termos simples, mas que implica uma atracção, simultaneamente espiritual e física, por outra pessoa. “Fazer amor já tem um sentido mais grosseiro, porque significa, muito prosaicamente, “fazer sexo”; ou seja, é uma definição que se limita à componente física do Amor, ao acto sexual. Entende-se que o Amor tem vários graus, partindo da “afeição”, passando depois pela sua manifestação mais primária, que é o “amor carnal”, sem interferência de sentimentos, até ao “amor ao próximo”, sob a forma de Compaixão, e ao Amor de grau supremo, que será a Caridade. “Amor à primeira vista” é aquele que se manifesta por um baque súbito e violento, perante uma pessoa por quem se fica estupidamente apaixonado, de repente. Por contraposição ao “amor carnal”, existe o “amor platónico”, que é muito puro e não inclui pensamentos lúbricos, nem cenas que envolvam camas, beijos, apalpões e outros pormenores atrevidos. “Amor socrático” é um Amor com características homossexuais, já que Sócrates (o filósofo) gostava muito de ter rapazinhos por perto, e não apenas para lhes incutir ideias filosóficas. “Amor clubista” é aquele que faz sofrer tragicamente as pessoas, quando o seu clube de futebol está a perder por três a zero a um minuto do fim do jogo. “Amor próprio” significa orgulho, sentimento de dignidade. “Amor à Pátria”, ou Patriotismo, é um sentimento próprio daqueles que podem não amar mais nada, mas são capazes de morrer pela terra onde nasceram. “Amor ao trabalho” é um tipo de amor habitualmente ridicularizado pela imensa maioria dos que amam, preferencialmente, o Descanso. “Amor à arte” é a situação em que se trabalha sem receber a justa paga, fenómeno muito comum, também chamado “parvoíce”. “Amor perfeito” é algo que não existe na vida afectiva das pessoas, mas, apenas, na vida botânica, sob a forma de uma planta híbrida com flores vistosas, de pétalas arredondadas e com várias cores. “Por amor de Deus!” é uma exclamação que não significa, necessariamente, amor pelo ser supremo, que muitos acreditam dominar e governar os seus amores – mas antes um particular desprezo pelas capacidades intelectuais do interlocutor. “Cartas de amor” são, por definição, e como escreveu Fernando Pessoa, cartas ridículas, porque nelas se escrevem frases de que, quase sempre, nos arrependemos, mais tarde.

ANAL – O que se refere ao ânus – ou, para sermos mais claros e mais pragmáticos, ao cu, que é a designação mais sintética e mais apropriada para a região do corpo humano onde se desenvolvem variadas actividades, umas meramente fisiológicas (“defecar”, ou, se preferirem, “evacuar”; ou a expulsão de ar devido ao “flato”, sob a forma de gases malcheirosos, popularmente designados por “peidos” ou, para almas mais sensíveis, “puns”) – outras menos inocentes, como a utilização do ânus para actividades eróticas. Neste último aspecto, o cu tem um papel importante, muitas vezes alternativo em relação a outros orifícios naturais do corpo humano, igualmente utilizados para a introdução do pénis, ou de certos instrumentos de substituição. Entre estes, contam-se coisas tão insólitas como garrafas, cabos de vassoura, maçanetas de portas, etc., havendo exemplos de casos que requerem a intervenção de médicos ou, mesmo, de serralheiros...

ANDRÓGINO – Aquele que reúne em si as características dos dois sexos, feminino e masculino. O mesmo que hermafrodita. Nome científico para classificar um indivíduo que, em linguagem corrente, costuma ser alvo de outras designações menos eruditas. Por exemplo: se o indivíduo se parece com um homem, mas só de um modo muito vago, chamam-lhe, provavelmente, “maricas”; se parece uma mulher, mas não muito convincentemente, então talvez lhe chamem “fufa”. Estas designações preconceituosas não têm, porém, razão de ser, porque as características de tais pessoas nascem com elas, não podem ser modificadas por simples opção, e são tão naturais como ter um nariz mais ou menos comprido.

ANDROPAUSA – Diminuição da actividade genital do homem, equivalente à menopausa da mulher. Fase da vida em que o homem começa a ficar um tanto ou quanto angustiado, e a perguntar, aos amigos da mesma idade, se eles também têm episódios de falhanço, e se estão a sentir-se “ir abaixo” – moralmente e não só.

ANILINCTUS – Acção de lamber o ânus. Exercício de excitação pré-coital, por vezes associado à coprofagia, tudo isto geralmente incluído no capítulo das aberrações. É o modo de satisfação conjugal de M. Bloom, um dos heróis da célebre obra de James Joyce “Ulisses”. Na mitologia cristã, seria uma das provas que Satã impunha aos seus adeptos, sacerdotes e sacerdotisas, durante o Sabat.

ASCETISMO – Consagração à "Ascese", ramo da filosofia grega que impõe práticas e disciplinas de austeridade e autocontrolo do corpo e do espírito. O asceta aplica voluntariamente mortificações a si próprio, entre as quais a completa renúncia a toda a actividade sexual, atitude que os não-ascetas consideram um desperdício.

ASSEXUADO – Aquele que não tem órgãos sexuais – ou que, pelo menos, aparenta não os possuir. Ou então, é como se os não tivesse, porque não os usa... Nesta última hipótese, pode tratar-se de um caso de pouca apetência para práticas relacionadas com o sexo, causada por frigidez, impotência, etc. De qualquer maneira, um assexuado perde ingloriamente a possibilidade de gozar alguns dos mais deliciosos prazeres da vida.

26/01/2012

O EROTISMO A NU - De "ABERRAÇÃO" a "ALCOVITEIRA"


A

ABERRAÇÃO – Ao contrário do que se poderia supor, não é por berrar durante o acto sexual que uma pessoa apresenta, obrigatoriamente, uma aberração. Na verdade, uma aberração é um comportamento considerado anormal, que pode mesmo assumir aspectos de perversão, quando essa for a única forma de a pessoa atingir o prazer. Exemplos comuns são o voyeurismo ou a coprofilia. Pode falar-se ainda de outros comportamentos (por exemplo, o exibicionismo) mais ou menos relacionados. Se esse hábito de berrar durante o acto for levado ao extremo de fazer acordar e alarmar toda a vizinhança, então sim, pode incluir-se na lista das aberrações, embora entre as menos significativas.

ABORTO – Perda de um feto, devida a razões naturais, ou provocada artificialmente. Neste ultimo caso, designa-se popularmente por “desmancho”. É curioso observar que um aborto provocado, quer seja feito legalmente (caso em que recebe a designação muito técnica de IVG – “Interrupção Voluntária da Gravidez”), quer seja provocado de forma clandestina, é geralmente acompanhado por uma “parteira”, o que parece uma designação incongruente: a senhora deveria chamar-se antes, logicamente, “desmanchadeira”...
Também costuma designar-se por aborto uma mulher, ou um homem, com uma   cara tão feia que é capaz de assustar de morte uma inocente criancinha, só por lhe piscar o olho. Ou um jogador de futebol que faz uma jogada sem cabeça e, o que é mais grave, sem pés, levando o espectador a exclamar: “Olha-me aquele aborto!”

ABRAÇO – Acto de envolver com os braços outra pessoa, com uma destas duas finalidades: manifestar-lhe afecto e carinho – ou verificar se há por ali mamas com silicone.

ABSTINÊNCIA – Ausência de qualquer tipo de actividade sexual, seja por vontade própria, ou por imposição – sendo esta causada por razões religiosas, fisiológicas, ou outras. Os padres católicos, por exemplo, têm obrigação de a observar (o que nem sempre acontece), enquanto alguns místicos a praticam por opção. Certas classes de indivíduos, como os prisioneiros, ou os marinheiros de longo curso, são obrigados à abstinência, esquecendo assim, temporariamente, as delícias do “bem-bom”. Só que, quase sempre, lá arranjam maneira de fazer o gosto ao dedo – ou à mão... Os desportistas em estágio também costumam praticar a abstinência, antes das grandes provas, a fim de guardarem todas as suas forças para a competição. Em qualquer destes casos, o pior é que, depois da abstinência, a primeira tentativa para atingir uma boa "performance" dá origem, muitas vezes, a um lamentável fiasco.

ABUSO – Fundamentalmente, significa “mau uso”. Por exemplo, o mau uso de um ascendente que exista, sobre outra pessoa, para exercer algum tipo de domínio sobre ela. O chamado abuso sexual, praticado sobre adultos, é altamente reprovável. Sobre menores, então, é um acto desprezível.

ACARICIAR – Fazer carícias a alguém. Um dos mais agradáveis preliminares para um acto amoroso. Apresenta "nuances"  e designações tão variadas e curiosas como "acarinhar", "acocar", "afagar", "agalimar", "ameigar", "amimar", "anediar", "cofiar", "embalar", "mimar", "roçar". E, na sua forma reflexa (acariciar-se) significa masturbar-se.

ACASALAR – Juntar dois indivíduos, geralmente (mas não sempre) com a finalidade de procriarem. Isso é mesmo verdadeiro quando se trata de bichos – mas, no caso dos humanos, pode não ser bem assim. Pode tratar-se, simplesmente, de se combinarem, a fim de passarem, juntos, uma agradável meia hora.

ACEPIPES – Iguarias que se saboreiam antes do prato principal. No sentido que nos interessa analisar, também se chamam preliminares e podem assumir aspectos muito variados e excitantes. Assim, podem incluir carícias, toques, beijos e outras diversões agradáveis.
Convém assinalar que os acepipes, na sua vertente gastronómica, são servidos, normalmente, frios; ao contrário, quando têm a ver com o erotismo, até podem ser escaldantes.

ACROBACIAS – Exercícios físicos praticados durante as actividades sexuais, e que podem ser incluídas no capítulo das posições. Destinam-se a dar maior emoção e variedade àqueles actos que, com a repetição, tendem a tornar-se rotineiros. As acrobacias podem conduzir a um destes dois resultados: a uma maior excitação, com maior prazer – ou, em alternativa, a uma hérnia.

ACTIVO – É o elemento dominante do par sexual, aquele que comanda as operações, que descobre novos motivos e novas emoções. Durante séculos, no par heterossexual, esse papel esteve entregue ao homem. Actualmente, nem sempre é assim. Muitas vezes, é a mulher que assume a condução do acto, é ela que está "por cima" – e não apenas simbolicamente.

ACTO – No sentido que nos interessa, o acto é toda a acção que visa a satisfação da líbido. “Acto de posse” é uma cerimónia em que alguém se apodera de algo, ou de alguém. “Acto administrativo”, “acto institucional” ou “acto jurídico” podem ser exemplificados pelo casamento. “Acto de variedades” é uma "performance" em que os participantes mudam de estilo e de actuação com frequência, de forma a evitarem a monotonia, tão normal quando se pratica o “acto único”...

ADÃO – Segundo o “Génesis”, foi o primeiro homem, nascido andrógino (“Deus criou o homem, macho e fêmea”). Daria, depois, origem à primeira mulher, Eva, alegadamente nascida de uma das suas costelas. Com ela, praticaria o “pecado original” – sem o qual, no fim de contas, nenhum de nós existiria actualmente. Ou seja, Adão era um ser puríssimo, que viria a ser tentado pela sua única companheira (por quem mais, se não havia outra?), nesse Paraíso onde viviam em paz, antes de comerem, a meias, uma simbólica maçã, que lhes revelaria as delícias da vida terrena. Há-de continuar a afirmar-se recorrentemente que talvez tivesse sido melhor, para Adão e para todos nós, ele não ter trincado aquela fruta. Esta teoria tem, todavia, poucos adeptos.   

ADOLESCÊNCIA – Período muito sensível da vida humana, entalado entre a puberdade e a juventude. É a fase em que tudo se desenvolve, cresce, engrossa e aumenta. Nos rapazes, os músculos, os pêlos, o pénis. Nas raparigas, as mamas, as ancas. Começam a descobrir-se as diferenças entre sexos. Eles apaixonados, elas apaixonadas, todos sem saberem lá muito bem o que isso quer dizer, mas muito excitados, emocional e fisicamente.

ADULTÉRIO – Relação sexual com alguém, exterior a um casal que foi formado por normas religiosas, civis, ou outras. Na maioria das civilizações, este acto pode ser considerado um delito, um crime ou um pecado, conforme as normas aceites pela respectiva comunidade. Em regra, os ritos matrimoniais estabelecem que os esposos são, por assim dizer, “propriedade mútua”, isto é, cada um deles é “dono” do outro. Mas, por tradição secular, a mulher não teve, nunca, a mesma liberdade sexual que o homem. Só recentemente este estado de coisas se foi transformando. Em certas sociedades, o adultério feminino é fortemente punido, mesmo com a pena capital – enquanto o adultério masculino até é bem acolhido e desculpado. Para o homem enganado há uma certa compreensão, quando ele se vinga da traição cometida pela sua mulher; ao passo que o inverso não é tão bem aceite. A única fuga a esta atitude convencional verifica-se nas histórias cómicas do “marido enganado”, o “cocu“ das comédias de “boulevard”, que é ridicularizado, mas nunca é castigado socialmente, se, por vingança, também "põe os palitos" à esposa.

AFEIÇÃO – Sabendo-se que há três tipos de funções mentais, que são “afecto”, “cognição” e “volição”, a primeira significa um sentimento terno em relação a uma pessoa (ou a um animal), uma afinidade natural que pode transformar-se em sentimento amoroso. É, assim, uma espécie de “exercício preparatório” para uma intimidade mais próxima.

AFRODISÍACO – Aquilo que tem a propriedade de excitar para os prazeres do sexo. Existem inúmeros produtos com fama (nem sempre justificada) de aumentarem o desejo sexual e o prazer no acto amoroso. Alguns são perigosos, sobretudo se usados em doses elevadas. Os mais conhecidos são as cantáridas, e algumas drogas como o haxixe, o ópio, a cocaína, a morfina, a estricnina e outras. Muita gente acredita nas virtudes afrodisíacas do corno de rinoceronte. A palavra afrodisíaco remete para o nome de Afrodite, a divindade grega do Amor – em honra de quem se celebravam as festividades “afrodíseas” – ou, para quem preferir as deusas romanas, para Vénus, sua correspondente na mesma área.
Existem, igualmente, substâncias com efeitos contrários, isto é, destinadas a acalmar os ardores amorosos; são chamadas anafrodisíacas – o mesmo nome que se aplica às pessoas que não têm tendência para se dedicarem às delícias do amor.

ÁGUA – Sendo um dos principais elementos, não só do nosso planeta, com do nosso corpo, ocupando uma percentagem maioritária do seu volume, a água tem uma importância fundamental em todas as actividades humanas – entre as quais as actividades ligadas ao amor e ao sexo. Assim, por exemplo, fazer amor dentro de água (numa piscina, ou no mar) é uma das fantasias de muita gente. Infelizmente, o resultado prático não é, normalmente, brilhante. A coisa não acerta, escorrega, dão-se cambalhotas inesperadas, enfim, é bastante difícil. Mas, não é de desistir, apesar de tudo: vale sempre a pena tentar. No entanto, o melhor papel que se pode reservar para a água é o de lavar os nossos corpos. O banho é excelente, “antes de” (para eliminar suores, cheiros e sujidades), bem como “depois de” (para relaxar).
A "água-de-colónia", usada sem excesso, pode ser um bom estimulante – mas, atenção, não se deve usar nunca na zona genital, porque o ardor causado é verdadeiramente atroz.

ÁLCOOL – As opiniões dividem-se, quanto à utilidade do álcool para melhorar a vida sexual. É verdade que algumas pessoas apenas se sentem motivadas para fazer sexo depois de terem emborcado várias bebidas fortes. Ora, é verdade que o álcool, em pequenas quantidades, até poderá ajudar. Duas taças de champanhe produzem um estado de euforia que alegra o ambiente e descontrai as pessoas. Todavia, ultrapassado certo limite, o efeito é, precisamente, o contrário. Produz-se um adormecimento das sensações, e passa a ser mais importante uma boa soneca do que uma boa queca.

ALCOVITEIRA – Pessoa que alcovita, isto é, que serve de intermediária entre namorados ou amantes, preparando-lhes a alcova (daí o nome). Embora também existam alcoviteiros, é uma actividade tradicionalmente feminina. Além de facilitar os contactos, a alcoviteira também assume, muitas vezes, o papel de exploradora de prostíbulos. Assim, o seu papel pode limitar-se a levar e trazer recados entre os amantes – ou pode ir mais longe, proporcionando-lhes a casa, o quarto e a cama onde eles poderão dar largas à sua paixão, pagando, é claro, o respectivo preço. Esta actividade é ainda conhecida sob outros nomes, alguns curiosos, como "alcoveta", "alcagueta", "alcaiola", "alcofeira", "caftina", "celestina", "engatadeira", "intervenideira", "madame" ou "proxeneta". Mas é uma actividade em decadência, nos tempos modernos, dadas as facilidades de contacto, cada vez maiores, entre aqueles que se amam.

24/01/2012

E AGORA, ALGO COMPLETAMENTE DIFERENTE...

Sim, e agora, algo completamente diferente
- como diriam os Monty Python...

Vou iniciar a publicação do meu livro "O EROTISMO A NU", que os Senhores Leitores terão a paciência de ir coleccionando, dia após dia, já que a obra irá saindo aos bocadinhos.


Hoje sai apenas uma Sinopse e a reprodução das maquetes das primeiras páginas - as únicas que chegaram a ser ilustradas. Nos dias seguintes, irá saindo o texto, na sua totalidade.


O EROTISMO A NU  Sinopse


Ao imaginar esta obra, propus-me produzir um trabalho de algum fôlego, destinado a fazer perder o fôlego aos seus leitores...

Todas as Editoras contactadas se assustaram. Umas alegaram que a obra era demasiadamente atrevida. Outras, que era grande de mais, e que sairia muito cara, por ter de incluir muitas ilustrações...

Resultado: este livro tem estado na gaveta – até que, passados uns bons anos, achei que nunca iria ser publicado pelas vias normais, e que mais valia oferecê-lo a quem o quisesse apreciar, sem custos e sem complicações. Ele aqui está, portanto – não ilustrado, porque o genial ilustrador Zé Manel, por motivos óbvios, limitou a sua participação ao desenho da capa e de mais duas ou três páginas iniciais. Daí em diante, a obra vai aparecer só em texto, e é assim que terá de ser vista pelos seus eventuais leitores.

Estes poderão incluir toda a gente, de todas as raças, de todas as culturas e de todas as idades – a partir, aproximadamente, dos seis meses até cerca dos noventa anos – já que o tema é o Erotismo, que é de interesse universal.

Está, assim, assegurada, à partida, uma boa fatia de público capaz de gostar de um tema que me proponho abordar de maneira divertida e amável: sob a forma de um Dicionário, escrito com algum Humor.

O subtítulo “Dicionário Anedótico do Mundo Erótico” contém, por assim dizer, o resumo e o programa, bem como o estilo, da obra.

Convém esclarecer, no entanto, que o tom humorístico dos textos não significa que a obra não contenha matéria devidamente cuidada e tratada com rigor. É que isto do Erotismo merece muito respeito...


O Autor
ANTÓNIO GOMES DALMEIDA
Com a colaboração das (infelizmente) poucas Ilustrações do ZÉ MANEL












20/01/2012

OS CÓMICOS 313

CRÓNICA “OS CÓMICOS”                                                                                                                     
PUBLICADA NO DIÁRIO DO SUL DE 16.1.2012
           
FUMAÇAS
           
DECLARAÇÃO DE INTERESSESInformo, a quem possa interessar, que não sou fumador – mas já fui. Durante uns vinte anos da minha vida, fumei cachimbo e, ocasionalmente, charuto. Nunca fumei um cigarro. Durante esse longo período, em que escrevia muito, para Jornais e para a Rádio, criei, dentro da minha cabeça, o mito de que não era capaz de produzir uma só linha de texto sem estar simultaneamente a fumegar... Mas, quando resolvi parar com a fumarada, parei mesmo, de vez. Isso aconteceu quando descobri, espantado e alarmado, que tinha uma alergia ao fumo. Ainda andei uns tempos a roer os pipos dos meus 35 cachimbos, vazios e apagados, até perder o vício. Hoje, as fumaças alheias incomodam-me e chateiam-me.
Esclarecido este ponto, estou à vontade para dizer que a ideia maluca, que corre por aí, sob a forma de ameaça geral, impossibilitando as pessoas de fumar, seja lá onde for, é uma burrice, uma asneirada, uma estupidez, uma parvoíce, um disparate, uma tolice, uma jericada – escolham a designação que preferirem, qualquer delas serve para definir essa ideia, parecida com outras que saem das cabecinhas de alguns dos nossos burocratas mais mentecaptos. É assim: de vez em quando, uns sujeitos que não devem ter muito que fazer, põem os pezinhos em cima das suas secretárias, reclinam-se para trás nos seus cómodos cadeirões, e pensam deste modo: – Ora bem, o que é que eu vou inventar esta tarde, para tramar a vida ao nosso Zé Povinho?... São pessoas doentinhas, há que compreendê-las, coitaditas, têm estes ataques de diarreia mental, e então saem-lhes coisas tão parvas como esta de proibir que se fume, não só nos recintos fechados – hospitais, clínicas, escolas, repartições, salas de espera, tudo locais onde a medida tem lógica, é saudável e inteligente – mas, também, nas praças e nos jardins, nas ruas e nos largos, nas montanhas e nos vales, e, sobretudo, à porta das empresas onde o pessoal vem fumar o seu cigarrinho a meio da manhã e a meio da tarde... Bom, lá que este espectáculo dos grupinhos fumantes encostados às ombreiras das portas é um bocado ridículo, até concordo. Mas, daí a alargar a proibição a recintos tais como restaurantes, discotecas e outros, onde os proprietários gastaram um dinheirão a criar zonas para fumadores, com extractores de fumos e outros equipamentos caros, que lhes foram impostos, ainda não há meia dúzia de anos – alto lá, isso já é entrar, não apenas na intimidade dos vícios das pessoas, mas nos bolsos de quem se meteu nessas despesas, com a crença (pelos vistos ingénua) de que estava a tratar com autoridades sérias e honestas, e não com gente que muda de ideias conforme os ventos, as manias, as modas e as conveniências do momento. Eu já nem quero entrar na discussão do fundamentalismo fanático desta gente, que se julga, a si própria, autorizada pela Providência (se calhar, também pela Previdência) a ter o direito de mandar em tudo, até nos vícios alheios, apresentando-se com ideias pretensamente moralistas e salvíficas! Estas gentes não deviam dedicar-se a fazer leis, deviam dedicar-se a criar novas religiões, que é para isso que têm jeito!... Esta ameaça da proibição total do tabaco é tão idiota que nem devia perder-se tempo com ela. Devia era pegar-se nestes Legisladores-da-Caca e metê-los no Manicómio, se ainda lá houver lugares vagos, tantos são os que já lá estão, embora sejam, mais os que lá deviam estar… Aliás, esta iniciativa nem sequer é lá muito inteligente. Se a intenção é baixar o consumo do tabaco, isso iria resultar na baixa dos lucros fenomenais que o Estado recebe, precisamente, através das vendas dos cigarrinhos – pelo que a medida até se pode considerar, nestes tempos de recessão, como profundamente antipatriótica!... Vocês não vêem isto, ó alminhas salvadoras que nos querem libertar do Pecado da Fumaça? Deixem lá fumar a malta, nos sítios onde isso já está permitido, e não compliquem mais a vida das pessoas! Eu, não-fumador, estou disposto a encabeçar uma manifestação a favor do Fumo Livre – desde que, evidentemente, não vá ninguém a fumar perto de mim…

19/01/2012

A TORRE DE DOM RAMIRES - Final

TEXTO FINAL DE

"A ILUSTRE CASA DE RAMIRES" 

(o romance de onde foi extraída a narrativa “A Torre de Dom Ramires”)


Mas agora, abandonada a banca onde tanto labutara, não sentia o contentamento esperado. Até esse suplício do Bastardo lhe deixara uma aversão por aquele remoto mundo Afonsino, tão bestial, tão desumano! Se ao menos o consolasse a certeza de que reconstituíra, com luminosa verdade, o ser moral desses avós bravios... Mas quê! bem receava que sob desconcertadas armaduras, de pouca exactidão arqueológica, apenas se esfumassem incertas almas de nenhuma realidade histórica!... Até duvidava que sanguessugas recobrissem, trepando dum charco, o corpo dum homem, e o sugassem das coxas às barbas, enquanto uma hoste mastiga a ração. (...). A Multidão ama, nas Novelas, os grandes furores, o sangue pingando; e em breve os Anais espalhariam, por todo o Portugal, a fama daquela Casa ilustre, que armara mesnadas, arrasara castelos, saqueara comarcas por orgulho de pendão, e afrontara arrogantemente os Reis na cúria e nos campos de lide...

(…)

- Pois eu tenho estudado muito o nosso amigo Gonçalo Mendes [disse João Gouveia, O Administrador do Concelho]. E sabem vocês, (...) quem ele me lembra?

- Quem?

- Talvez se riam. Mas eu sustento a semelhança. Aquele todo de Gonçalo, a franqueza, a doçura, a bondade, a imensa bondade (...)... Os fogachos e entusiasmos, que acabam logo em fumo, e juntamente muita persistência, muito aferro quando se fila à sua idéia... A generosidade, o desleixo, a constante trapalhada nos negócios, e sentimentos de muita honra, uns escrúpulos, quase pueris, não é verdade?... A imaginação que o leva sempre a exagerar até à mentira, e ao mesmo tempo um espírito prático, sempre atento à realidade útil. A viveza, a facilidade em compreender, em apanhar... A esperança constante nalgum milagre, no velho milagre de Ourique, que sanará todas as dificuldades... A vaidade, o gosto de se arrebicar, de luzir, e uma simplicidade tão grande, que dá na rua o braço a um mendigo... Um fundo de melancolia, apesar de tão palrador, tão sociável. A desconfiança terrível de si mesmo, que o acovarda, o encolhe, até que um dia se decide, e aparece um herói, que tudo arrasa... Até aquela antiguidade de raça, aqui pegada à sua velha Torre, há mil anos... Até agora aquele arranque para a África... Assim todo completo, com o bem, com o mal, sabem vocês quem ele me lembra?

- Quem?...
 
- Portugal.

(...) No céu branco uma estrelinha tremeluzia sobre Santa Maria de Craquede. E Padre Soeiro, com o seu guarda-sol sob o braço, recolheu à Torre vagarosamente, no silêncio e doçura da tarde, rezando as suas Ave-Marias, e pedindo a paz de Deus para Gonçalo, para todos os homens, para campos e casais adormecidos, e para a terra formosa de Portugal, tão cheia de graça amorável, que sempre bendita fosse entre as terras.

A TORRE DE DOM RAMIRES - Glossário geral

GLOSSÁRIO

As notas de rodapé que acompanham cada capítulo (algumas das quais podem aparecer repetidas, de capítulo para capítulo, a fim de tornar mais fácil a sua consulta), reúnem-se aqui, na sua totalidade, por ordem alfabética.

ABEGOARIA – Lugar onde se guarda o gado e os carros.
ABOLADO – Amolgado.
ACAIRELADO – Adornado.
ACAUDILHADO – Conduzido.
ACHA – Arma com a forma de machado; acha-de-armas.
AÇODADO – Apressado.
ACONTIADO – Contado, avaliado.
AÇOR – Ave semelhante ao falcão.
ACOSTADO – Guarda.
ADAIL – Guia ou chefe de soldados.
ADANEL – Comandante.
ADARVE – Caminho estreito sobre os muros das fortalezas.
ADIANTADO-MOR – Governador de província ou comarca, com poder militar.
AGARENO – Árabe.
ALAPADO – Escondido.
ALCÁÇAR – Alcácer; castelo.
ALCÁÇOVA – Local fortificado; fortaleza.
ALCÂNDORA – Poleiro para aves de rapina.
ALCOVITAR – Servir de medianeiro em relações amorosas.
ALEVANTO – Revolta; motim.
ALMADRAQUE – Colchão grosseiro e rústico.
ALMENARA – Farol ou fogueira acesa em torre ou lugar elevado.
ALMOCADÉM – Capitão de infantaria.
ALMOGÁVAR, ALMOGRAVE – Guerreiro dissimulado; guerrilheiro.
ALMORREIMAS – Hemorróidas.
ALÕES – Grandes cães de guarda e de caça grossa.
ALVA – Primeira claridade da manhã; alvor; aurora.
ANAFINS – Trombetas.
ANDAS – Padiola.
ANTA – Pele de animal.
APRESTOS – Preparativos.
APRESTOS DE GUERRA – Preparativos de batalha.
ARÇÃO – Armação de sela de cavalo.
ARFAR – Respirar.
ARNÊS – Armadura de guerreiro.
ARREBOL – Luz vermelha da madrugada.
ARRUAÇA – Motim; tumulto; desordem.
ARRUELA – Pequena roda.
ARTEIRICE – Esperteza; manha.
ASCUMA – Pequena lança de arremessar.
ASSETEADO – Preparado para lançar setas (das seteiras).
ASSUAR – Motivar; animar.
AVANTESMA – Fantasma.
AVENÇA – Harmonia; concórdia.
AVENÇAS – Presentes; vantagens; ofertas de paz.
AVOENGO – Antepassado; avô,
AZÊMOLA – Besta de carga.
BACINETE – Espécie de capacete.
BALSÃO – Estandarte.
BANDEADO – Pertencente ao bando; cúmplice.
BANDEAR-SE – Passar-se para o inimigo.
BARBACÃS – Muros avançados, construídos entre as muralhas e o fosso.
BARREGÃ – Mulher que vive com homem, sem ser casada; prostituta.
BARROCAIS – Terrenos barrentos.
BASTARDO – Nascido fora do matrimónio legal; adulterino.
BASTIÃO – Obra de fortificação.
BEGUINO – Religioso que, embora observando uma regra, não pertence a uma Ordem.
BESTEIRO – Soldado cuja arma é a besta, arma portátil que lança setas curtas.
BRAVIO – Mato.
BRIAL – Espécie de túnica que o cavaleiro veste sobre a roupa interior.
BRICHE – Tecido de lã castanho-escuro, felpudo e grosseiro.
BRIDAS – Rédeas.
BRONCO – Tosco
BROQUEL – Escudo redondo.
BUFARINHEIRO – Vendedor ambulante.
BUREL – Tecido grosseiro de lã.
CALABRE – Corda grossa.
CAMALHO – Barrete de malha.
CAMALHO – Barrete de malha.
CÂMARA – Quarto.
CAMPO DO TAVOLADO – Terreiro.
CÂNAVE – Cânhamo.
CANDIL – Candeeiro; lanterna.
CAPELINA – Elmo ligeiro.
CAPELO – Capacete; capuz.
CÁRCOVA – Porta falsa de praça fortificada.
CARRIAGEM – Quantidade de carros.
CARRO DE SARGA – Carro para transporte de uvas ou de vinho.
CASA DE TAVOLAGEM – Casa onde há jogos de tabuleiro.
CASCO – Capacete.
CAVALARIÇO – Homem que cuida dos cavalos.
CAVALEIRO DE SOLDO – Cavaleiro que recebe pagamento.
CERDO – Porco.
CERRO – Colina.
CERRO ARRAIANO – Colina na fronteira.
CERVILHEIRA – Barrete de malha com fios metálicos, para proteger a cabeça e o pescoço.
CEVAR – Saciar.
CHOUTAR – Trotar.
CHUÇO – Vara armada de ferro.
CHUFA – Troça.
CHURDO – Bruto; sujo.
CHUSMA – Multidão de indivíduos de classes baixas.
CILHA – Cinta larga, de couro ou de tecido, que aperta a sela ou carga.
CIMITARRA – Espada de lâmina curva, usada pelos guerreiros muçulmanos; alfange.
COGULA – Túnica larga, sem mangas, usada por religiosos.
COLAÇO – Irmão de leite; indivíduo que é íntimo ou muito amigo de outro.
COLMADO – Coberto de colmo.
CONCA – Tigela; malga de madeira.
CORCEL – Cavalo veloz usado em batalha.
CORISCAR – Faiscar.
CÓRREGO – Caminho aberto na terra pela chuva ou por um regato.
CORSELETE – Parte mais leve da armadura, usada sobre o peito.
COUDEL – Capitão de cavalaria.
CÔVADO – Medida de comprimento, equivalente a cerca de 66 cm.
COXOTE – Parte da armadura que protege a coxa.
CREDÊNCIA – Crédito; poder de representação.
CÚRIA – Assembleia.
DAR ALARIDO – Espalhar clamor de combate.
DESTRO – Apropriado.
DOBRÃO – Antiga moeda, de alto valor.
DONOSA – Donairosa; bela.
ELMO – Capacete.
EM DESBANDO – À vontade; à solta; de formas desorganizada.
EMPRAZAR – Convocar.
ESCANHO – Tamborete; escabelo; banco.
ESCULCA – Sentinela; vigia.
ESPALDA – Encosto; espaldar, costas (de cadeira).
ESPOSTEJAR – Cortar em postas.
ESTACADA – Espaço defendido por estacas.
ESTAFEIRO – Palafreneiro; estribeiro.
ESTEIO – Apoio; pilar; sustentáculo.
EXORCIZADO – Liberto de espíritos malignos.
FERO – Feroz.
FÍSICO – Médico.
FLÂMULA – Bandeirinha estreita e comprida, terminando em bico.
FOJO – Armadilha para animais.
FÓLIO MAÇUDO – Livro ou manuscrito pesado e difícil de ler.
FOUVEIRO – Cavalo castanho claro, malhado de branco.
FRANÇAS – Ramos de árvores.
FRECHEIRO – Soldado que usa arco e frechas (ou flechas).
FREIRE – Religioso; membro de ordem religiosa e militar.
FUNDA – Bolsa: fisga.
FUNDEIRO BALEAR – Guerreiro que usa fundas para atirar balas.
FUNDIBULÁRIO – Soldado que combate com fundas.
GABO – Elogio.
GARGALHEIRA – Garganta.
GARRUCHÃO – Mecanismo para armar as bestas.
GARRUNCHA – Anel de ferro ou de madeira.
GATEADA – Presa por gatos de metal.
GIBANETE – Peça de vestuário usada por baixo da cota ou couraça.
GILVAZ – Cicatriz.
GINETE – Cavalo de boa raça.
GORJA – Garganta; pescoço.
GORJAIS – Protecções da garganta.
GRANDE PODER – Grande número, grande quantidade de gente.
GREDA – Barro.
GREVA – Parte da armadura que recobre as pernas, do joelho para baixo.
GRILHÃO – Cadeia grossa de anéis de ferro.
GUANTE – Luva de ferro.
HIRSUTO – Eriçado.
HOMÍZIO – Crime.
INFANÇÃO – Título de nobreza, inferior a fidalgo ou a rico-homem.
JOGOS DE TAVOLAGEM – Jogos de tabuleiro.
JUSTA – Luta entre dois cavaleiros.
LÁTEGO – Chicote.
LESO – Que sofreu lesão; ferido.
LEVADIÇA – Ponte que se pode levantar ou baixar.
LORIGA, LORIGAL – Couraça feita de malha ou escamas de ferro.
LOROS – Correias duplas, afiveladas à sela, para sustentar os estribos.
MAGAREFE – Carniceiro.
MANAR – Brotar.
MANCEBA – Mulher jovem; amante.
MANTEL – Toalha de mesa.
MARRANO – Judeu; imundo; excomungado.
MARROQUIM – Pele curtida de bode ou de cabra.
MASMORRA – Prisão subterrânea.
MASTIM – Grande cão de guarda.
MEMBRUDO – Musculoso.
MERCÊ – Da sua mercê = da sua confiança.
MESNADA – Grupo de homens que, mediante pagamento, servem como soldados.
MESSES – Searas.
MOABITAS – Antigo povo semítico.
MOFAR – Rir; troçar.
MONTANTE – Grande espada manejada com as duas mãos.
MORABITINO – Moeda de ouro.
MORRIÃO – Capacete com plumas.
MURZELO – Cavalo negro.
OBLATO – Leigo que serve em ordens religiosas.
OURELA – Margem; borda.
OUROPEL – Liga metálica amarela que imita ouro.
OVENÇAL – Despenseiro.
PANOS DE DÓ – Panos de luto.
PELEJA – Luta; batalha.
PENDÃO – Bandeira; estandarte.
PENDÃO E CALDEIRA – Estandarte e símbolo que vão à frente das tropas.
PEONAGEM – Grupo de peões; soldados que marcham a pé.
PICHEL – Vaso de estanho para beber vinho.
POLDRAS – Ramos novos de árvores.
POSTEMA – Chaga; posta de sangue.
POTERNA – Porta pequena de fortificação.
PRANCHADA – Pancada simbólica recebida, com a espada, ao ser armado cavaleiro.
PRAZIA – Agradava.
PREITO – Veneração; respeito.
PRELADO – Título honorífico de alguns dignitários religiosos.
PRESTES! – Depressa!
PUA – Ponta aguçada.
QUADRELA – Porção de muralha.
RAÇÃO DE MERIDIANA – Refeição do meio-dia.
RECOSTO – Encosto.
REPOSTEIRO-MOR – Fidalgo encarregado de cuidar da cadeira senhorial.
RETOUÇAR – Pastar.
RISTADO – Em riste, preparado para atacar.
ROJÃO – Vara comprida, com grilhões na ponta, para espicaçar os touros.
ROLDA – Ronda.
ROSILHO – Cavalo com pelo avermelhado e branco.
SABER DESTRO – Sabedoria, habilidade.
SAIMENTO – Cortejo fúnebre; funeral.
SAIO – Vestimenta de guerreiro, de tecido grosseiro e esbranquiçado.
SANHA – Fúria.
SANHUDO – Terrível.
SARÇA – Mata densa; silvado.
SENDA – Caminho estreito.
SERGENTE – Militar de categoria inferior à dos oficiais, mas comandando soldados.
SIMONTE – Rapé.
SOFREAR – Deter-se; travar.
SOFREAR – Sustar; refrear a marcha.
SOLARENGO – Dono de solar; fidalgo.
SOLEDADE – Solidão.
SOLHA – Cota guarnecida com lâminas metálicas.
SUÃO – Vento quente de sul.
SULCO – Estilo.
SURDIR – Surgir, aparecer.
SURRÃO – Veste gasta e suja.
TABUÃO – Pranchas grandes e grossas.
TALAR – Devastar.
TAUXIAR – Lavrar; ornar; embutir.
TENDE – Acalmai-vos; esperai.
TERÇAR – Cruzar.
TERÇAR LANÇAS – Lutar.
TESTEIRA ROSTRADA – Parte da cabeçada sobre a testa do cavalo.
TORRE ALBARRÃ – Torre fortificada, de onde se observam os arredores.
TRAÇA – Táctica; plano.
TREBALHA – Odres de vinho.
TROPEAR – Cavalgar.
TRUÃO – Bobo.
TURBA – Multidão.
UCHÃO – Despenseiro; ovençal.
UCHARIA – Despensa; local onde se guardam os mantimentos.
UFANIA – Regozijo; orgulho.
URCA – Embarcação à vela, com dois mastros.
VALIDO – Protegido.
VEDOR DA FAZENDA – Inspector de impostos.
VEIGAS – Campos férteis.
VERDUGO – Carrasco.
VERGEL – Pomar; jardim.
VIANDA – Qualquer espécie de comida, especialmente carne.
VÍLICO – Feitor; regedor; administrador; autoridade.
VILTOSO – Infame.
VIROTÃO – Seta ou dardo.                                                   
VIROTES – Setas ou dados curtos.
VISEIRA GRADADA – Parte da frente, móvel e gradeada, do capacete.

18/01/2012

A TORRE DE DOM RAMIRES - Capítulo V

Capítulo V

Era enfim a madrugada vingadora em que os Cavaleiros de Santa Ireneia, reforçados pelas mais nobres lanças da mesnada275 dos Castros, surpreendiam, no bravio desfiladeiro marcado por Garcia Viegas, o Sabedor, o bando de Baião, na sua açodada corrida sobre Coimbra... Briga curta e falsa, sem destro276 e brioso terçar277 de armas, mais semelhante a montaria contra um lobo do que a arremetida contra um Filho-de-Algo. E assim a desejara Tructesindo, com ruidosa aprovação de D. Pedro de Castro, porque não se cuidava de combater um inimigo, mas de colher um matador.

Antes do luzir da alva, o Bastardo abalara do castelo de Landim, em dura pressa e com tão descuidada segurança, que nem almogávar278 nem coudel279 lhe atalaiavam os trilhos. As cotovias cantavam quando ele, em áspero trote, penetrou por essa brecha, entalada entre escarpas de penedia e urze, que chamam a Racha do Mouro, desde que Mafoma a fendeu para que escapassem às adagas cristãs de El-Rei Fernando, o Magno, o Alcaide mouro de Coimbra e a monja que ele arrebatara à garupa.

E apenas pela esguia greta enfiara a derradeira lança da fila – eis que da outra embocadura do vale surge o cerrado troço dos Cavaleiros de Santa Ireneia, que Tructesindo guia, com a viseira erguida, sem broquel280, sacudindo apenas uma ascuma281 de monte como se folgadamente andasse em caçada. Da selva arredada que os encobria, rompem por trás as lanças dos Castros, ristadas282 e cerrando a brecha mais densamente que as puas283 duma levadiça. Do recosto284 dos cerros285 rola, como represa solta, uma rude e escura peonagem!

Colhido, perdido, o Bastardo terrível! Ainda arranca furiosamente a espada, que redemoinhando o coroa de coriscos. Ainda com um fero grito arremete contra Tructesindo... Mas bruscamente, dentre um escuro magote de fundeiros baleares286, parte ondeando uma corda de cânave287, que o laça pela gargalheira288, o arranca num brusco sacão da sela mourisca, o derriba, sobre pedregulhos em que a sua larga espada se entala e se parte rente ao punho dourado. E enquanto os Cavaleiros de Baião aguentam assombradamente o denso cerco de lanças, que os envolvera – um rolo de peões, em dura grita, como mastins289 sobre um cerdo290, arrastarn o Bastardo para a lomba do outeiro, onde lhe arrancam broquel e adaga, lhe despedaçam o brial291 de lã roxa, lhe quebram os fechos do elmo, para lhe cuspirem na face, nas barbas cor de ouro, tão belas e de tanto orgulho!

Depois a mesma bruta matula o iça, amarrado, para sobre o dorso duma possante mula de carga, o estende entre dois esguios caixotes de virotões, como rês apanhada ao recolher da montaria. E servos da carriagem ficam guardando o Cavaleiro soberbo, o Claro-Sol que alumiava a casa de Baião, agora entaipado entre dois caixotes de pau, com cordas nos pés, e cordas nas mãos, e nelas espetado um triste ramo de cardo – emblema da sua traição.

No entanto os seus quinze Cavaleiros juncavam o chão, esmagados sob o furioso cerco de lanças que os investira – uns hirtos, como adormecidos, dentro das negras armaduras, outros torcidos, desfeitos, com as carnes retalhadas, pendendo horrendamente entre malhas rotas dos lorigais292. Os escudeiros, colhidos, empurrados a pontoada de chuço para a boca duma barroca, sem resgate ou mercê, como alcateia imunda de roubadores de gado, acabaram, decepados a macheta pelos barbudos estafeiros293 leoneses. Todo o vale cheirava a sangue como um pátio de magarefes294. Para reconhecer os companheiros do Bastardo, uma turma de Cavaleiros desafivelava os gorjais295, as viseiras, arrancando furtivamente as medalhas de prata, os bentos, saquinhos de relíquias, que todos traziam como bem-tementes. Numa face, de fina barba negra, que uma espuma sangrenta manchava, Mendo de Briteiros reconheceu seu primo Soeiro de Lugilde com quem, pela fogueira de S. João, folgara tão docemente e bailara no castelo de Unhelo – e vergado sobre a alta sela rezou, pela pobre alma sem confissão, uma devota Ave-Maria. Fuscas, tristonhas nuvens, abafavam a manhã de Agosto. E afastados à entrada do vale, sob a ramagem dum velho azinheiro, Tructesindo, D. Pedro de Castro, e Garcia Viegas, o Sabedor, decidiam que morte lenta, e bem dorida e viltosa296, se daria ao Bastardo, vilão de tão negra vilta.

Sob a folhagem do azinheiro, os três Cavaleiros combinavam com lentidão uma vingança terrífica. Tructesindo desejara logo recolher a Santa Ireneia, alçar uma forca diante das barbacãs, no chão em que seu filho rolara morto, e nela enforcar, depois de bem açoitado, como vilão, o vilão que o matara. O velho D. Pedro de Castro, porém, aconselhava despacho mais curto, e também gostoso. Para que rodear por Santa Ireneia, desbaratar esse dia de Agosto na arrancada que os levava a Montemor, a socorro das Infantas de Portugal? Que se estendesse o Bastardo amarrado sobre uma trave, aos pés de D. Tructesindo, como porco pelo Natal, e que um cavalariço lhe chamuscasse as barbas, e depois outro, com facalhão de ucharia297, o sangrasse no pescoço, pachorrentamente.

- Que vos parece, Sr. D. Garcia?

O Sabedor desafivelara o casco de ferro, limpava nas rugas o suor e a poeira da lide:

- Senhores e amigos! Temos melhor, e perto também, sem delongas de cavalgada, logo adiante destes cerros, no Pego das Bichas... E nem torcemos caminho, que de lá, por Tordezelo e Santa Maria da Varge, endireitamos a Montemor, tão direitos como voa o corvo... Confiai em mim, Tructesindo! Confiai em mim, que eu arranjarei ao Bastardo tal morte e tão vil, que doutra igual se não possa contar desde que Portugal foi condado.

- Mais vil que forca, para Cavaleiro, meu velho Garcia?

- Lá vereis, senhores e amigos, lá vereis!

- Seja! Mandai dar às buzinas.

Ao comando de Afonso Gomes, o Alferes, as buzinas soaram. Um troço de besteiros e de estafeiros leoneses rodearam a mula que carregava o Bastardo amarrado e entalado entre dois caixotes. E, acaudilhada298 por D. Garcia, a curta hoste meteu para o Pego das Bichas, em desbando299 com os senhores de lança espalhados, como em marcha de folgança e paz, e todos numa rija falada recordando, entre gabos300 e risos, as proezas da lide.

A duas léguas de Tordezelo e do seu castelo formoso, se escondia entre os cerros o Pego das Bichas. Era um lugar de eterno silêncio e de eterna tristeza.

Em esmerados versos lhe marcara o tio Duarte a desolada asperidão:

Nem trilo de ave em balançado ramo!
Nem fresca flor junto de fresco arroio!
Só rocha, matagal, ribas soturnas,
E em meio o Pego, tenebroso e morto!...

E quando os primeiros Cavaleiros, galgada a lomba dum cerro, o avistaram, na melancolia da manhã nevoenta, emudeceram da larga falada, repuxaram os freios, assustados ante tão áspero ermo, tão propício a Bruxas, a Avantesmas e a Almas penadas. Diante do escalavrado barranco, por onde os ginetes escorregavam, ondulava uma ribanceira, aberta com charcos lamacentos, quase chupados pela estiagem, luzindo pardamente, por entre grossos pedregulhos e o tojo rasteiro. Ao fundo, a meio tiro de besta, negrejava o Pego, lagoa estreita, lisa, sem uma ruga n'água, duramente negra, com manchas mais negras, como lâmina de estanho onde alastrasse a ferrugem do tempo e do abandono. Em torno subiam os cerros, eriçados de mato bravio e alto, sulcados por trilhos de saibro vermelho como por fios de sangue que escorresse, e rasgado no alto por penedias lustrosas, mais brancas que ossadas. Tão pesado era o silêncio, tão pesada a soledade301, que o velho D. Pedro de Castro, homem de tanta jornada, se espantou:

- Feia paragem! E voto a Cristo, a Santa Maria, que nunca antes de nós, nela entrou homem remido pelo baptismo.

- Pois, Sr. D. Pedro de Castro! – acudiu o Sabedor – já por aqui se moveu muita lança, e luzida, e ainda em tempos do Conde D. Soeiro, e de vosso Rei D. Fernando, se erguia naquela beira d'água, uma castelania famosa! Vede além! – E mostrava na ponta do Pego, fronteira ao barranco, dois rijos pilares de pedra, que emergiam da água negra, e que chuva e vento poliram como mármores finos. Um passadiço de traves, sobre estacas limosas e meio apodrecidas, atava a margem ao mais grosso dos pilares. E a meio desse rude esteio pendia uma argola de ferro.

No entanto já o tropel da peonagem se espalhara pela ribanceira. D. Garcia Viegas desmontou, bradando por Pero Ermigues, o Coudel302 dos besteiros de Santa Ireneia. E, ao lado do ginete de Tructesindo, risonho e gozando a surpresa, ordenou ao Coudel que seis dos seus rijos homens descessem o Bastardo da mula, o estirassem no chão, o despissem, todo nu, como sua mãe barregã303 o soltara à negra vida...

Tructesindo encarou o Sabedor, franzindo as sobrancelhas hirsutas:

- Por Deus, D. Garcia! que me ides simplesmente afogar o vilão, e sujar essa água inocente!...

E alguns Cavaleiros, em redor, murmuraram também contra morte tão quieta e sem malícia. Mas os miúdos olhos de D. Garcia giravam, lampejavam de triunfo e gosto:

- Sossegai, sossegai! Velho estou certamente, mas ainda o senhor Deus me consente algumas traças304. Não! Nem enforcado, nem degolado, nem afogado... Mas chupado, senhores! Chupado em vida, e devagar, pelas grandes sanguessugas que enchem toda essa água negra!

D. Pedro de Castro, maravilhado, bateu o guante nas solhas305 do coxote:

- Vida de Cristo! Que ter numa hoste o Sr. D. Garcia, é ter juntamente, para marchas e conselho, enrolados num só, Anibal e Aristóteles!

Um rumor de admiração correu pela hoste:

- Boa traça, boa traça!

E Tructesindo, radiante, bradava:

- Andar, andar, besteiros! E vós, senhores, recuai para a lomba do cerro, como para palanque, que vai ser grande a vista!

Já seis besteiros descarregavam da mula o Bastardo amarrado. Outros cercavam, com molhos de cordas. E, como magarefes para esfolar uma rês, toda a rude turma se abateu sobre o malfadado, arrancando por cordas que desatavam a cervilheira, o saio, as grevas, os sapatões de ferro, depois a grossa roupa de linho encardido. Agarrado pelos compridos cabelos, filado pelos pés, onde se cravavam agudas unhas no furor de o manter, com os braços esmagados sob outros grossos braços retesos, o possante Bastardo ainda se estorcia, urrando, cuspindo contra as faces confusas da matulagem um cuspo avermelhado, que espumava!

Mas, por entre o escuro tropel que o cobria, o seu corpo, todo despido, branquejava, atado com cordas mais grossas. Lentamente o seu furioso urrar esmorecia, arquejado e rouquenho. E um após outro se erguiam os besteiros, esfalfados, bufando, limpando o suor do esforço.

No entanto os Cavaleiros de Espanha, de Santa Ireneia, desmontavam cravando o couto das lanças entre o tojo e as pedras. Todos os recostos dos outeiros se cobriam da mesnada espalhada, como palanques em tarde de justa306. Sobre uma rocha mais lisa, que dois magros espinheiros toldavam de folha rala, um pajem estendera peles de ovelha para o Sr. D. Pedro de Castro, para o senhor de Santa Ireneia. Mas só o velho Castelão se acomodou, para uma repousada delonga desafivelando o seu corselete307 de ferro tauxiado308 de ouro.

Tructesindo permanecera erguido, mudo, com os guantes309 apoiados ao punho da sua alta espada, os olhos fundos avidamente cravados na tenebrosa lagoa que, com morte tão fera e tão suja, vingaria seu filho... E pela borda do Pego, peões, e alguns Cavaleiros de Espanha, remexiam com virotões, com os cotos das ascumas310, a água lodosa, na curiosidade das negras bichas escondidas, que o povoam.

Subitamente a um brado de D. Garcia, que rondava, toda a chusma de peões amontoada em torno ao Bastardo se arredou: e o forte corpo apareceu, nu e branco, sobre a terra negra, com um denso pêlo ruivo nos peitos, a sua virilidade afogada noutra mata de pêlo ruivo, e todo ligado por cordas de cânave que o inteiriçavam. Naquela rigidez de fardo, nem as costelas arfavam, apenas os olhos refulgiam, ensanguentados, horrendamente esbugalhados pelo espanto e pelo furor. Alguns Cavaleiros correram a mirar a aviltada nudez do homem famoso de Baião. O senhor dos Paços de Argelim mofou311, com estrondo:

- Bem o sabia, por Deus! Corpo de manceba312, sem costura de ferida!...

Leonel de Samora raspou o sapato de ferro pelo ombro do malfadado:

- Vede este Claro-Sol, tão claro, que se apaga agora, em água tão negra!

O Bastardo cerrava duramente as pálpebras – donde duas grossas lágrimas escaparam, lentamente rolaram... Mas um agudo pregão ressoou pela ribanceira:

- Justiça! Justiça!

Era o Adaíl313 de Santa Ireneia, que marchava, sacudia uma lança, atroava os cerros:

- Justiça! justiça que manda fazer o senhor de Treixedo e de Santa Ireneia, num perro matador!... Justiça num perro, filho de perra, que matou vilmente, e assim morra vilmente por ela!...

Três vezes pregoou por diante da hoste apinhada nos cerros. Depois quedou, saudou humildemente Tructesindo Ramires, o velho Castro, como ajulgadores no seu Estrado de julgamento.

- Aviai, aviai! – bradava o Senhor de Santa Ireneia.

Imediatamente, a um comando do Sabedor, seis besteiros, com as pernas embrulhadas em mantas da carga, ergueram o corpo do Bastardo como se ergue um morto enrolado no seu lençol, e com ele entraram na água, até o mais alto pilar de granito. Outros, arrastando molhos de cordas, correram pelo limoso passadiço de traves. Com um alarido de aguenta! endireita! alça! num desesperado esforço o robusto corpo branco foi mergulhado n'água até às virilhas, arrimado ao mais alto pilar, depois nele atado com um longo calabre314 que, passando pela argola de ferro, o suspendia, sem escorregar, tão seguro e colado como um rolo de vela que se amarra ao mastro. Rapidamente os besteiros fugiram d'água, desentrapando logo as pernas, que palpavam, raspavam no horror das bichas sugadoras. Os outros recolheram pelo passadiço, numa fila que se empurrava. No Pego ficava Lopo de Baião bem arranjado para a vistosa morte lenta, com a água que já o afogava até às pernas, com cordas que o enroscavam até o pescoço, como a um escravo no poste; e uma espessa mecha dos cabelos louros laçada na argola de ferro, repuxando a face clara, para que todos nela gozassem largamente a humilhada agonia do Claro-Sol.

Então o atento da hoste, esperando espalhada pelos recostos dos cerros, mais entristeceu o enevoado silêncio do ermo. A água jazia sem um arrepio, com as suas manchas, negras como uma lâmina de estanho enferrujado. Entre as cristas das rochas, arqueiros postados pelo Sabedor atalaiavam, para além, os descampados. Um alto vôo de gralha atravessou grasnando. Depois um bafo lento agitou as flâmulas315 das lanças cravadas no tojo denso.

Para despertar, aviar a lentidão das bichas, alguns peões atiravam pedras à água lodosa. Já alguns Cavaleiros espanhóis rosnavam impacientes com a delonga, naquela cova abafada. Outros, descendo agachados à borda da lagoa, para mostrar que as faladas bichas nunca acudiriam, mergulhavam lentamente, n'água negra, as mãos descalçadas, que depois sacudiam, rindo e mofando do Sabedor...

Mas de repente um estremeção sacudiu o corpo do Bastardo; os seus rijos músculos, no furioso esforço de se desprenderem, inchavam entre as cordas, como cobras que se arqueiam; dos beiços arreganhados romperam, em rugidos, em grunhidos, ultrajes e ameaças contra Tructesindo covarde, e contra toda a raça de Ramires, que ele emprazava316, dentro do ano, para as labaredas do Inferno! Indignado, um Cavaleiro de Santa Ireneia agarrou uma besta de garruncha317, a que retesou a corda.

Mas D. Garcia deteve o arremesso:

 - Por Deus, amigo! Não roubeis às sanguessugas nem uma pinga daquele sangue fresco!... Vede como vêm! vede como vêm!

Na água espessa, em torno às coxas mergulhadas do Bastardo, um frémito corria, grossas bolhas empolavam – e delas, molemente, uma bicha surdiu, depois outra e outra, luzidias e negras, que ondulavam, se colavam à branca pele do ventre, donde pendiam, chupando, logo engrossadas, mais lustrosas com o lento sangue que já escorria. O Bastardo emudecera – e os seus dentes batiam estridentemente. Enojados, até rudes peões desviaram a face cuspindo para as urzes. Outros, porém, chasqueavam, assuavam318 as bichas, gritando: - A ele, donzelas! a ele! E o gentil Çamora de Cendufe clamava rindo contra tão insossa morte! Por Deus! Uma apostura de bichas, como a enfermo de almorreimas319. Nem era sentença de Rico-homem – mas receita de herbanista mouro!

- Pois que mais quereis, meu Leonel? –  acudiu alegremente o Sabedor, resplandecendo. –  Morte é esta para se contar em livros! E não tereis este Inverno serão à lareira, por todos os solares de Minho a Douro, em que não volte a história deste Pego, e deste feito! Olhai nosso primo Tructesindo Ramires! Formosos tratos presenciou decerto em tão longo lidar de armas!... E como goza! tão atento! tão maravilhado!

Na encosta do outeiro, junto do seu balsão320, que o Alferes cravara entre duas pedras, e como ele tão quedo, o velho Ramires não despregava os olhos do corpo do Bastardo, com deleite bravio, num fulgor sombrio. Nunca ele esperara vingança tão magnífica! O homem que atara seu filho com cordas, o arrastara numas andas, o retalhara a punhal diante das barbacãs da sua Honra, agora, vilmente nu, amarrado também como cerdo, pendurado dum pilar, emergido numa água suja, e chupado por sanguessugas, diante de duas mesnadas, das melhores de Espanha, que miravam, que mofavam! Aquele sangue, o sangue da raça detestada, não o bebia a terra revolta numa tarde de batalha, escorrendo de ferida honrada, através de rija armadura – mas, gota a gota, escuramente e molemente se sumia, sorvido por nojentas bichas, que surdiam famintas do lodo e no lodo recaíam fartas, para sobre o lodo bolçar o orgulhoso sangue que as enfartara.

Num charco, onde ele o mergulhara, viscosas bichas bebiam sossegadamente o Cavaleiro de Baião! Onde houvera homízio321 de solares fundado em desforra mais doce?

E a fera alma do velho acompanhava, com inexorável gozo, as sanguessugas subindo, espalhadamente alastrando por aquele corpo bem amarrado, como seguro rebanho pela encosta da colina onde pasta. O ventre já desaparecia sob uma camada viscosa e negra, que latejava, reluzia na humidade morna do sangue. Uma fila sugava a cinta, encovada pela ânsia, donde sangue se esfiava, numa franja lenta. O denso pêlo ruivo do peito, como a espessura duma selva, detivera muitas, que ondulavam, com um rasto de lodo. Um montão enovelado sangrava um braço. As mais fartas, já inchadas, mais reluzentes, despegavam, tombavam molemente; mas logo outras, famintas, se aferravam. Das chagas abandonadas o sangue escorria delgado, represo nas cordas, donde pingava como uma chuva rala. Na escura água boiavam gordas postemas322 de sangue esperdiçado. E assim sorvido, ressumando sangue, o malfadado ainda rugia, através de ultrajes imundos, ameaças de mortes, de incêndios, contra a raça dos Ramires! Depois, com um arquejar em que as cordas quase estalavam, a boca horrendamente escancarada e ávida, rompia aos roucos urros, implorando água, água! No seu furor as unhas, que uma volta de amarras lhe colara contra as fortes coxas, esfarrapavam a carne, cravavam-se na fenda esfarrapada, ensopadas de sangue.

E o furioso tumulto esmorecia num longo gemer cansado – até que parecia adormecido nos grossos nós das cordas, as barbas reluzindo sob o suor que as alagara como sob um grosso orvalho, e entre elas a espantada lividez dum sorriso delirado.

No entanto já na hoste derramada pelos cerros, como por um palanque, se embotara a curiosidade bravia daquele suplício novo. E se acercava a hora da ração de meridiana323. O Adaíl de Santa Ireneia, depois o Almocadém Espanhol, mandaram soar os anafins324. Então todo o áspero ermo se animou com uma faina de arraial. O almazém das duas mesnadas parara por detrás dos morros, numa curta almargem de erva, onde um regato claro se arrastava nos seixos, por entre as raízes de amieiros chorões. Numa pressa esfaimada, saltando sobre as pedras, os peões corriam para a fila dos machos de carga, recebiam dos uchões e estafeiros a fatia de carne, a grossa metade dum pão escuro; e, espalhados pela sombra do arvoredo, comiam com silenciosa lentidão, bebendo da água do regato pelas concas325 de pau. Depois preguiçavam, estirados na relva – ou trepavam em bando pela outra encosta dos morros, através do mato, na esperança de atravessar com um virote alguma caça erradia. Na ribanceira, diante da lagoa, os Cavaleiros, sentados sobre grossas mantas, comiam também, em roda dos alforjes abertos, cortando com os punhais nacos de gordura nas grossas viandas de porco, empinando, em longos tragos, as bojudas cabaças de vinho.

Convidado por D. Pedro de Castro, o velho Sabedor descansava, partilhando duma larga escudela de barro, cheia de bolo papal, dum bolo de mel e flor de farinha, onde ambos enterravam lentamente os dedos, que depois limpavam ao forro dos morriões326. Só o velho Tructesindo não comia, não repousava, hirto e mudo diante do seu pendão, entre os seus dois mastins, naquele fero dever de acompanhar, sem que lhe escapasse um arrepio, um gemido, um fio de sangue, a agonia do Bastardo. Debalde o Castelão, estendendo para ele um pichel de prata, gabava o seu vinho de Tordesilhas, fresco como nenhum de Aquilat ou de Provins, para a sede de tão rija arrancada. O velho Rico-homem nem atendera: - e D. Pedro de Castro, depois de atirar dois pães aos alões fiéis, recomeçou discorrendo com Garcia Viegas sobre aquele teimoso amor do Bastardo por Violante Ramires que arrastara a tantos homízios e furores.

- Ditosos nós, Sr. D. Garcia! Nós a quem a idade e o quebranto e a fartura já arredam dessas tentações... Que a mulher, como me ensinava certo físico327 quando eu andava com os Mouros, é vento que consola e cheira bem, mas tudo enrodilha e esbandalha. Vede como os meus por elas penaram! Só meu pai, com aquela desvairança de zelos, em que matou a cutelo minha doce madre Estevaninha. E ela tão santa, e filha do Imperador! A tudo, tudo leva, a tonta ardência! Até a morrer, como este, sugado por bichas, diante duma hoste que merenda e mofa. E por Deus, quanto tarda em morrer, Sr. D. Garcia!

- Morrendo está, Sr. D. Pedro de Castro. E já com o demo ao lado para o levar!

O Bastardo morria. Entre os nós das cordas ensanguentadas todo ele era uma ascorosa avantesma328 escarlate e negra com as viscosas pastas de bichas que o cobriam, latejando com os lentos fios de sangue que de cada ferida escorriam, mais copiosos que os regos de humidade por um muro denegrido.

O desesperado arquejar cessara, e a ânsia contra as cordas, e todo o furor. Mole e inerte como um fardo, apenas a espaços esbugalhava horrendamente os olhos vagarosos, que revolvia em torno com enevoado pavor. Depois a face abatia, lívida e flácida, com o beiço pendurado, escancarando a boca em cova negra, de onde se escoava uma baba ensanguentada. E das pálpebras novamente cerradas, intumescidas, um muco gotejava, também como de lágrimas engrossadas com sangue.

A peonagem, no entanto, voltando da ração, reatulhava a ribanceira, pasmava, com rudes chufas329 para o corpo pavoroso que as bichas ainda sugavam. Já os pajens recolhiam mantéis e alforjes. D. Pedro de Castro descera do cabeço com o Sabedor até à borda da água lodosa, onde quase mergulhava os sapatos de ferro, para contemplar, mais de cerca, o agonizante de tão rara agonia! E alguns senhores, estafados com a delonga, afivelando os gibanetes330, murmuravam: - "Está morto! Está acabado!"

Então Garcia Viegas gritou ao Coudel dos Besteiros:

- Ermigues, ide ver se ainda resta alento naquela postema.

O Coudel correu pelo passadiço de traves, e arrepiado de nojo palpou a lívida carne, acercou da boca, toda aberta, a lâmina clara da adaga que desembainhara.

- Morto! morto! – gritou.

Estava morto. Dentro das cordas que o arroxeavam o corpo escorregava, engelhado, chupado, esvaziado. O sangue já não manava331, havia coalhado em postas escuras, onde algumas bichas teimavam latejando, reluzindo. E outras ainda subiam, tardias. Duas, enormes, remexiam na orelha. Outra tapava um olho. O Claro-Sol não era mais que uma imundície que se decompunha. Só a madeixa dos cabelos louros, repuxada, presa na argola, reluzia com um lampejo de chama, como rastro deixado pela ardente alma que fugira.

Com a adaga ainda desembainhada, e que sacudia, o Coudel avançou para o senhor de Santa Ireneia, bradou:

- Justiça está feita, que mandastes fazer no perro matador que morreu!

Então o velho Rico-homem, atirando o braço, o cabeludo punho, com possante ameaça, bradou, num rouco brado que rolou por penhascos e cerros:

- Morto está! E assim morra de morte infame quem traidoramente me afronte a mim e aos da minha raça!

Depois, cortando rigidamente pela encosta do cerro, através do mato, e com um largo aceno ao Alferes do Pendão:

- Afonso Gomes, mandai dar às buzinas. E a cavalo, se vos praz, Sr. D. Pedro de Castro, primo e amigo, que leal e bom me fostes!...

O Castelão ondeou risonhamente o guante:

- Por Santa Maria, primo e amigo! que gosto e honra os recebi de vós. A cavalo pois se vos praz! Que nos promete aqui o Sr. D. Garcia vermos ainda, com sol muito alto, os muros de Montemor.

Já a peonagem cerrava as quadrilhas, os donzéis de armas puxavam para a ribanceira os ginetes folgados que a vasta água escura assustava. E, com os dois balsões tendidos, o Açor negro, as Treze Arruelas, a fila da cavalgada atirou o trote pelo barranco empinado, donde as pedras soltas rolavam. No alto, alguns Cavaleiros ainda se torciam nas selas para silenciosamente remirarem o homem de Baião, que lá ficava, amarrado ao pilar, na solidão do Pego, a apodrecer.

Mas quando a ala dos besteiros e fundibulários de Santa Ireneia desfilou, uma rija grita rompeu, com chufas, sujas injúrias ao "perro matador". A meio da escarpa, um besteiro, virando, retesou furiosamente a besta. A comprida garruncha apenas varou a água. Outra logo ziniu, e uma bala de funda, e uma seta barbada – que se espetou na ilharga do Bastardo, sobre um negro novelo de bichas.

O Coudel berrou: "cerra! anda!" A récua das azêmolas332 de carga avançava, sob o estalar dos látegos333; os moços da carriagem apanhavam grossos pedregulhos, apedrejavam o morto. Depois os servos carreteiros marcharam, nos seus curtos saios de couro cru, balançando um chuço curto: - e o capataz apanhou simplesmente esterco das bestas, que chapou na face do Bastardo sobre as finas barbas de ouro.


FIM






275 – MESNADA – Grupo de homens que, mediante pagamento, servem como soldados.
276 – DESTRO – Apropriado.
277 – TERÇAR – Cruzar.
278 – ALMOGÁVAR – Guerrreiro dissimulado; guerrilheiro.
279 – COUDEL – Capitão de cavalaria.
280 – BROQUEL – Escudo redondo.
281 – ASCUMA – Pequena lança de arremessar.
282 – RISTADAS – Em riste; preparadas para atacar.
283 – PUAS – Pontas aguçadas.
284 – RECOSTO – Encosta.
285 – CERROS – Colinas.
286 – FUNDEIROS BALEARES – Guerreiros que usam fundas para atirar balas.
287 – CÃNAVE – Cânhamo.
288 – GARGALHEIRA – Garganta.
289 – MASTINS – Grandes cães de guarda.
290 – CERDO – Porco.
291 – BRIAL – Espécie de túnica que o cavaleiro veste sobre a roupa interior.
292 – LORIGAIS – Couraças feitas de malha ou escamas de ferro.
293 – ESTAFEIROS – Palafreneiros; estribeiros.
294 – MAGAREFES – Carniceiros.
295 – GORJAIS – Protecções da garganta.
296 – VILTOSA – Infame.
297 – UCHARIA – Despensa; local onde se guardam os mantimentos.
298 – ACAUDILHADA – Conduzida.
299 – EM DESBANDO – À vontade; à solta; de forma desorganizada.
300 – GABOS – Elogios.
301 – SOLEDADE – Solidão.
302 – COUDEL – Capitão de cavalaria.
303 – BARREGÃ – Mulher que vive com homem sem ser casada; prostituta.
304 – TRAÇAS – Tácticas; planos.
305 – SOLHAS – Cotas guarnecidas com lâminas metálicas.
306 – JUSTA – Luta entre dois cavaleiros.
307 – CORSELETE – Parte mais leve da armadura, usada sobre o peito.
308 – TAUXIADO – Lavrado; ornado; embutido.
309 – GUANTES – Luvas de ferro.
310 – ASCUMAS – Pequenas lanças de arremessar.
311 – MOFOU – Riu.
312 – MANCEBA – Mulher jovem; amante.
313 – ADAIL – Guia ou chefe de soldados.
314 – CALABRE – Corda grossa.
315 – FLÂMULAS – Bandeirinhas estreitas e compridas, terminando em bico.
316 – EMPRAZAVA – Convocava.
317 – GARRUNCHA – Anel de ferro ou de madeira.
318 – ASSUAVAM – Motivavam; animavam.
319 – ALMORREIMAS – Hemorróidas.
320 – BALSÃO – Estandarte.
321 – HOMÍZIO – Crime.
322 – POSTEMAS – Chagas; postas de sangue.
323 – RAÇÃO DE MERIDIANA – Refeição do meio-dia.
324 – ANAFINS – Trombetas.
325 – CONCAS – Tigelas; malgas de madeira.
326 – MORRIÕES – Capacetes com plumas.
327 – FÍSICO – Médico.
328 – AVANTESMA – Fantasma.
329 – CHUFAS – Troças.
330 – GIBANETES – Peças de vestuário usadas por baixo da cota ou couraça.
331 – MANAVA – Brotava.
332 – AZÊMOLAS – Bestas de carga.
333 – LÁTEGOS – Chicotes.